22/10/2017

Charlie Hebdo e a tênue linha entre a crítica e o mal-gosto

Por Felipe Branco Cruz

O periódico francês Charlie Hebdo demonstrou recentemente que sua verve ácida continua afinada mesmo após ele ter sido vítima de um dos atentados terroristas mais chocantes da história da França, quando terroristas islâmicos invadiram a redação e mataram os editores por publicarem charges contra Maomé.

2015-09-15_15-31-19_1Os petardos lançados pelo jornal agora miram os refugiados de guerra que imigram em massa para a Europa, algo nunca antes visto desde a Segunda Guerra Mundial. A ONU divulgou nesta terça-feira (29) que mais de 500 mil pessoas tentaram imigrar para o continente em arriscadas travessias pelo Mediterrâneo ou por terra.

A imagem síntese e mais chocante foi a de uma criança com, no máximo, dois anos de idade encontrada morta nas areias da praia de Bodrum, na Turquia. A foto do rostinho do bebê mergulhado na areia, com suas roupas encharcadas e o sapatinho azul ainda calçado em seus pés, comoveu o mundo e acelerou a tomada de decisões dos países europeus com relação aos refugiados.

Para ilustrar esse problema, o Charlie Hebdo fez uma charge onde mostra Jesus caminhando sobre as águas. Na legenda, o semanário escreveu: “Cristãos andam sobre as águas. As crianças se afogam”, em uma óbvia alusão à jornada quase suicida que os refugiados (a maioria muçulmanos) se jogam em busca de paz. Recentemente, um jovem sírio disse para uma rede de TV que os imigrantes não têm escolhas, ou deixam seus países ou morrem. “Não queremos sair da Síria. Queremos paz”, resumiu o garoto.

Uma outra charge do Charlie Hebdo, também publicada recentemente, é ainda mais ácida. O periódico fez um desenho da criança morta na praia com um outdoor ao fundo do McDonald’s escrito: “Promoção. Dois pratos infantis pelo preço de um”, com a legenda: “Tão perto da meta…”. Certeira.

noticia_909718_img1_charlie-hebdoAmbas as charges nos fazem refletir sobre este grave problema humanitário e demonstram que o Hebdo não tem como foco apenas criticar os muçulmanos. O jornal quer enfiar o dedo na ferida e mostrar o que poucas pessoas têm coragem de apontar. É neste aspecto que reside a importância de semanários como esses que atuam na tênue linha entre a crítica e o mal gosto, porque ninguém mais o faz.

Em tempo. Em uma inédita colaboração entre inimigos históricos, a Rússia, os Estados Unidos e o Irã estão costurando nos bastidores uma aliança para acabar de vez com a guerra na Síria e no Iraque e destruir o estado islâmico. Em seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, Putin afirmou que quer criar uma coalizão mundial parecida com a que derrubou Hitler. Também na ONU, Obama afirmou que não descarta “trabalhar com com qualquer nação, incluindo Rússia e Irã, para terminar o conflito”.

Discursos bonitos todos nós estamos cansados de ouvir. Mas o que interessa mesmo são ações efetivas para resolver os problemas. Caso elas não sejam tomadas urgentemente, infelizmente outras tragédias como a morte daquela criança vão continuar acontecendo todos os dias e servirão como combustível para as charges certeiras do Charlie Hebdo.

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