11/12/2017

Desert Trip: uma baita viagem musical

Três dias no deserto na companhia de Bob Dylan, Rolling Stones, Neil Young, Paul McCartney, The Who e Roger Waters

Meu destino era o deserto do Mojave, na Califórnia, mas o que me preocupava era o furacão Matthew, na Flórida, onde eu faria escala, e que provocou o cancelamento de todos os voos para Miami. Não seria um furacão categoria 4 com ventos de 200km/h que me impediria de ir para o Festival do Século, o Desert Trip, com Bob Dylan, Rolling Stones, Neil Young, Paul McCartney, The Who e Roger Waters, entre os dias 7 e 9 de outubro.

No guichê da companhia aérea, a funcionária nem bem tinha começado o expediente e já estava com uma cara de poucos amigos. “Tenho certeza que você vai me ajudar”, disse. Em resposta ouvi: “Não acho”. De um lado, crianças choravam porque perderam a sonhada viagem para Disney. Do outro, uma grávida gritava com outra atendente porque queria viajar de qualquer jeito.

Mantive a calma: “Me mande para qualquer lugar, mas faça com quem eu chegue na Califórnia até sexta-feira. É o show dos Rolling Stones”. Finalmente vi um sorriso na cara daquela mulher. “Por que não me disse antes? Não vou deixar você perder esse show. Sou fã”, respondeu. E me encaixou num vôo com escala em Santiago, no Chile. Fui salvo pelo rebolado do Mick Jagger.

A mudança da viagem me atrasou em 10 horas. De Santiago, ainda fiz outra escala em Dallas, no Texas, para finalmente voar para a Califórnia. Deixei o Brasil na quarta-feira (5) e cheguei em no aeroporto internacional de Ontário, a 100 km de Palm Springs, dois dias depois, na sexta-feira, às 11h. Por causa do trânsito, seriam mais três horas de carro pelo deserto até Indio, onde naquele mesmo dia, às 18h50, Bob Dylan faria a primeira apresentação da noite.

Trânsito na rodovia para chegar até Indio, na Califórnia

Por volta das 14h, quando cheguei ao hotel, eu ainda estava com a mesma roupa do dia anterior. Só deu tempo de trocar a camisa correndo e embarcar na van para o festival. Enfrentamos mais um trânsito infernal em que nada ficaria devendo ao Rock in Rio.

Na van, um casal discutia política e a presença da mulher na sociedade americana. “Você é homem. Porque não mandaram uma mulher fazer essa cobertura internacional?”, ela me perguntou. “Não sei, mas minha chefe é uma mulher”, respondi. “Boa resposta”, ela replicou e ganhei a sua simpatia. Nos dias seguintes, toda vez que o casal me encontrasse na van, eu ganharia um “hi-five” ou “toca aí”.

Naquele dia, a imprensa americana tinha divulgado um áudio em que Donald Trump fazia comentários babacas sobre as mulheres e passamos o resto da viagem conversando sobre como ele era um imbecil. Dois dias depois, Roger Waters, em seu show no festival, faria duras críticas ao político, chamando-o de “porco”. Mal sabíamos que um mês depois Trump se tornaria o novo presidente dos Estados Unidos.

Conversei com algumas pessoas sobre o protesto de Waters. Muitos concordaram com ele. Outros, embora não gostassem de Trump, disseram que a eleição presidencial americana não era problema de um britânico. “Ele [Waters] deveria se preocupar com os problemas de seu país, a Inglaterra, que deixou a União Europeia, e não com os nossos problemas”, desabafou uma moça na fila da cerveja.

As amigas Karin e Karan

Com essa correria toda e chegando na cidade a poucas horas do festival, eu ainda tinha que buscar a credencial, que só poderia ser adquirida num clube de golfe a 10 km de distância da portaria do evento. Faltava pouco menos de uma hora para o início do show de Bob Dylan e com aquele trânsito, eu achei que não fosse dar tempo.

A van contratada só me levou até o festival e não até o clube de golfe para pegar a credencial. Vi outras vans chegando e ofereci US$ 25 para o motorista me levar até o tal clube. As amigas Karin Myren, das Ilhas Cayman, e Karan Shaner, do Canadá, também estavam na mesma situação e o motorista aproveitou para ganhar mais. Ele cobrou outros US$ 25 de cada uma para também levá-las. Eu acabei incluindo a história das duas na primeira reportagem que publiquei sobre o festival no UOL.

No caminho, descobri que o nome do motorista era Lorenzo White. “Seu sobrenome em inglês significa ‘Branco’, igual ao meu, só que em português”, disse para ele. O motorista gostou da brincadeira, passamos a nos chamar de primos. Ele me contou que era de Los Angeles e viajou para Indio só para transportar as pessoas para o festival. “Estou ganhando um extra com vocês. A empresa não pode saber que eu estou fazendo esse desvio”, ele disse. Veja só… há malandragem em todo lugar.

Os visitantes usavam um bandana no rosto para se protegerem do tempo seco

Chegamos ao clube de golfe, pegamos as credenciais e conhecemos um pai e um filho que também estavam buscando transporte de volta para o Desert Trip. White ganhou mais US$ 25 de cada um e embolsou no total US$ 125 extras no final do dia.

Finalmente consegui entrar no festival e Bob Dylan já tinha feito dez minutos de show. Nada mal para quem a pouco mais de 12 horas aguardava o voo em Santiago, no Chile. Dylan ainda não tinha ganhado o prêmio Nobel, feito que só aconteceria na semana seguinte. Curti muito os shows. É só o que eu posso falar de uma noite em que pude ouvir na sequência Bob Dylan e Rolling Stones. Embora não fizesse calor, o clima era mesmo desértico com o ar muito seco.

Na volta, a van que contratei atrasou e só cheguei ao hotel Quality Inn por volta das 2h da manhã, o equivalente a 7h no horário do Brasil. Estava quebrado. Tomei duas garrafas de água para recuperar o fôlego, escrevi os textos do dia. Banho e cama.

Foto de divulgação feita durante o show de Roger Waters

Hunter Thompson feelings

No dia seguinte, sentei à beira de uma piscina meio suja para escrever as outras reportagens. Estava em um hotel clássico americano à margem de uma rodovia, em que nada ficaria devendo aos lugares onde Hunter Thompson costumava escrever. Só faltava a garrafa de Wild Turkey e o charuto cubano. Quem sabe numa próxima ocasião?

Estava acompanhado do jornalista Jotabê Medeiros. Enquanto ele escreveria as críticas dos shows, eu focaria as minhas reportagens em todo o resto. No corredor do hotel, surgiu um vendedor ambulante com uma mala de camisetas do festival — não originais, é claro. Ele as oferecia por US$ 20. Negociei para US$ 15 e ele topou na hora. Fiquei pensando que poderia ter oferecido ainda menos que, talvez, ele aceitasse. Dentro do festival, cada blusa não saía por menos de US$ 50.

Almoçamos a 300 metros dali, em um cassino pertencente aos índios nativos do Mojave. Lá dentro, com aquelas mesas meio encardidas e o indefectível cheiro de cigarro, me senti num episódio da segunda temporada de “True Detective”. Como não sei jogar cartas, não perdi tempo nem dinheiro (embora até quisesse fazer uma fezinha). Duas fatias de pizza e duas cervejas depois, estávamos de volta ao hotel aguardando a van para o segundo dia.

Vista aérea da área do festival

A região onde eu estava, no Coachella Valley, que reúne as cidades de Palm Springs, Cathedral City, Palm Desert e Indio tem aproximadamente 350 mil habitantes. Com o advento do Uber, sobraram apenas quatro cooperativas de taxi com, no máximo, 160 veículos para atender toda a população. Também não vi ônibus nas ruas. É um lugar pequeno em número de habitantes, mas imenso no tamanho, com casarões espalhadas numa extensão de 100 km quadrados. Bill Gates, por exemplo, tem uma mansão por lá. A falta de transporte público, portanto, não é um problema para os ricaços. Mas era para mim e para muita gente por ali. Felizmente conseguimos nos virar.

Foi por isso, por exemplo, que muitos brasileiros decidiram fazer algo tipicamente americano: alugar um motorhome e viajar pelo país à bordo dessas casas ambulantes. Eu queria conhecer essas pessoas e aproveitei o segundo dia de festival (antes de Neil Young e Paul McCartney subirem ao palco, é claro) para conhecer o estacionamento onde estavam mais de 700 motorhomes.

Os brasileiros Sergio Castelani e Sara Santos

Conheci o casal brasileiro Sergio Castelani e Sara Santos que viajou por toda a Califórnia antes de estacionar no Desert Trip. Enquanto os shows não começavam, os dois aproveitaram o lugar para conhecerem novas pessoas e se divertirem nas atrações disponíveis só para quem estava estacionado ali. Tomamos juntos algumas cervejas, conversamos em cima do teto do carro e fizemos até uma transmissão ao vivo.

Dentro do festival, conversei com hippies, tiozões e muita gente endinheirada. Para todos, perguntei se carregavam maconha porque queria fazer uma reportagem sobre o tema, mas não encontrei muitas pessoas dispostas a falar (um mês depois, a erva seria oficialmente legalizada para uso recreativo na Califórnia). Conheci, no entanto, o ex-hippie Ronald Alexandre, 64, que foi ao festival de Woodstock em 1969. Ele reclamou que o Desert Trip era certinho demais e estava sentindo falta de lama, topless e sexo.

Anota aí: “faltou lama, topless e sexo”

Realmente, o padrão do festival era alto demais. Até o banheiro químico tinha ar-condicionado. E não é para menos. O nome Desert Trip não foi dado por acaso, já que as temperaturas por lá ultrapassam facilmente os 45 graus. No final do dia, era comum ver as pessoas com bandanas molhadas nos rostos para se protegerem da poeira e da secura. Só fui me tocar disso quando era tarde demais e meu nariz já sangrava. Felizmente foi algo passageiro.

No lugar era possível ver também uma exposição com centenas de fotos históricas das bandas que se apresentariam no festival. Conheci um dos fotógrafos, Henry Diltz, autor da icônica imagem do The Doors na capa do álbum “Morrison Hotel”. Conversei com ele para uma reportagem e pedi para ele fazer uma foto minha. Afinal, eu queria ter uma foto feita pelo mestre. Depois, dividimos como colegas de trabalho a sala de imprensa, já que ele também estava ali para fotografar o festival.

Uma foto com Henry Diltz, autor da icônica foto da capa do álbum “Morrison Hotel”, do The Doors

Na sala de imprensa também circulavam a nata da crítica musical americana, com repórteres do Washington Post, Los Angeles Times e até do New York Times, que enviou Jon Pareles, editor de música popular do periódico. Vimos ele sentado num cantinho escrevendo seu texto e nada de ser publicado. A matéria só sairia alguns dias depois onde ele escreveu que esses músicos “fazem parte de um seleto grupo que começou na década de 60 e faz sucesso até hoje”, além de criticar o line-up masculino e branco. “Aretha Franklin não foi convidada?”, questionou.

Violência

O pacato lugar, no entanto, não ficou isento da violência. No sábado, enquanto Paul McCartney fazia a passagem de som, a 39 quilômetros dali, os policiais Jose Gilbert Vega, de 63 anos, e sua parceira Lesley Zerebny, de 27 anos (que tinha acabado de voltar de licença maternidade e tinha uma filha de quatro meses) foram assassinados por um homem após uma desavença com a sua mulher. A cidade, que já estava lotada de gente, ficou impossível de circular porque o cerco policial ficou intenso. Foi a primeira vez que policiais foram mortos em serviço desde 1962. Igualzinho no Rio de Janeiro, não é mesmo?

Nessa, fui revistado na portaria do festival e confiscaram meu pau de selfie (sim, podem me julgar, mas eu levei um pau de selfie), duas maçãs e uma banana que eu pretendia levar lá para dentro. Aparentemente, para a polícia, paus de selfie, bananas e maçãs podem ser coisas perigosas. No mais, a noite foi incrível. Mais uma vez, o que se pode criticar de um show em que Paul McCartney divide o palco com Neil Young?

Letreiro na sala de imprensa informa o horário dos shows do dia

O terceiro dia também transcorreu normalmente. Já estava me acostumado com o hotel de beira de estrada e achando normal comer panquecas com maple syrup e beber café aguado de manhã.

Preparei uma bandana para me proteger da poeira e fui assistir The Who e Roger Waters. Por volta de meia noite, o festival finalmente acabou. Meu voo seria já no dia seguinte às 10h30, em Ontario. Cochilei até às 5h da manhã, peguei a van e fui para o aeroporto quase sem dormir — mas feliz da vida.

O que você achou dessa notícia? Comente