21/09/2018

Bibi Ferreira completa 86 anos com festa em cima dos palcos

Por: Felipe Branco Cruz
Publicado originalmente no Jornal da Tarde

Bibi Ferreira completará 86 anos neste domingo (01/06/2008). E a festa de aniversário da filha de Procópio Ferreira não poderia ser em local mais adequado: o palco, com direito a bolo para uma platéia de 600 pessoas. Em cartaz há um ano, Bibi é a estrela da peça Às Favas com os Escrúpulos, que teve Adriane Galisteu no elenco. Diversos compromissos impediram Galisteu de continuar na peça. Entre eles, escrever um livro sobre as crises das mulheres de 30 anos. E foi sobre isso que fomos conversar com Bibi. A atriz recebeu a reportagem do JT pouco antes de entrar no palco em seu camarim e falou sobre sexo, solidão, vaidade e modernidade.

As crises que as mulheres passam quando chegam aos 30 anos são sempre as mesmas?
Depende de que século estamos falando. Porque a mulher de 30, há 60 ou 70 anos, já estava casada, repousada, organizada na sua vida amorosa, sexual e emocional. Claro que depois da revolução dos anos 60 a coisa foi tomando um vulto. Hoje, ela está ficando cada vez mais sozinha, não está se casando e não está pensando que daqui a pouco outras de 20 vão tomar o lugar.

Você passou por essa crise?
Me casei muito jovem, com vinte e poucos anos. Depois me separei e me casei novamente. Sempre estive casada. Só depois que morreu o Paulo Pontes é que não me casei mais e não tive mais nenhuma ligação. Depois de uma certa idade, realmente, a mulher não tem possibilidade nenhuma de se casar, a não ser que ela tenha uma sorte brutal. É muito difícil alguém que se interesse por uma mulher de muita idade.

Você completa 86 anos no dia 1º de junho. Que crises uma mulher da sua idade enfrenta?
O que não é muito bom quando se tem 86 anos é que não existe um homem que se aproxime. É a grande solidão. Mas eu compreendo bem que não pode. Eu já tive meus amores, meus maridos. Isso deixa uma grande saudade e a gente sente falta de um companheiro. As pessoas imaginam que você está só e, de certa forma, para algumas mentalidades, desprotegida.

É a crise dos 50, dos 60?
Certos casais vão até longa data juntos. São longevos e praticamente morrem juntos. São grandes companheiros. Não existe o fato de ter 70, 80 anos e não terem sexo. Eles têm sexo nessa idade. A libido existe e a vontade de fazer sexo também. E não tem jeito de resolver. Fica parado no ar.

O Viagra, por exemplo, ajuda a resolver alguns problemas…
Isso para o homem. Para mulher ainda não inventaram nada. Para elas deveriam inventar algo para acalmar e segurar a libido. Eu acho que está cada vez mais difícil a mulher, depois dos 30 – e eu estou falando porque eu tenho muita idade –, se adaptar a um companheiro.

Até hoje você usa salto 15 sempre que pode. Você é muito vaidosa?
(Risos) Eu tenho um problema de altura que eu preciso compensar com o salto. A vaidade é uma espécie de gene.

Quando a plástica vira paranóia?
Paranóia é quando começa a fazer uma por cima da outra. Se você acorda e vê você mesma no espelho e isso não agrada, a cirurgia estética é indicada.

Hoje em dia, as pessoas dão valor maior ao corpo?
Sim. Coisa que não se dava 50 ou 70 anos atrás porque a mulher se casava e esquecia do corpo. Ia envelhecendo e engordando junto com o marido. Mas hoje, não. A mulher se exibe muito e ela tem o exemplo dos próprios artistas. A mulher tem uma vida muito mais aberta do que tinha antigamente. Hoje em dia, a mulher custa para casar. Ela tem que estar o tempo todo dentro desta faixa do fashion.

E a vontade de ser mãe?
Aí complica tudo. Fica muita coisa junta que ela não vai atender. Mas são pouquíssimas as pessoas que não têm vontade de serem mães.

Existem certas coisas que a modernidade substituiu, como enviar uma carta?
Eu recebo cartas ainda. De fãs, porque eles sabem que eu não tenho computador na minha casa. Eu não tenho necessidade. Mando telegramas e funciono melhor com os Correios e Telégrafos. É tão gostoso você receber um telegrama. Mexe mais com você do que um e-mail.

Você não usa celular ?
Você talvez leve até um susto. Sou bastante moderna. Converso com as pessoas mais jovens de igual para igual e no entanto eu não tenho celular. Celular me cansa. Eu vejo as pessoas do meu lado que só atendem ao celular e acho insuportável.

O que molda o ator? Teatro? Tevê?
A tevê também. Ela tem atores fantástico que nunca pisaram no palco. Ator é bom em qualquer lugar. Ele é bom na tevê, é bom no cinema, é bom no teatro. Quando ele é bom, não faz diferença.

Que preconceito do passado os atores de hoje em dia não sofrem?
Minha própria história é um exemplo. Aos nove anos negaram minha matrícula em um colégio religioso só porque eu era filha de Procópio Ferreira. Filho de artista não entrava no colégio. Isso aconteceu há 77 anos. Hoje em dia você paga para o Gianecchini ir na sua festa de casamento ou de 15 anos da sua filha. Isso se o Gianecchini aceitar ir.

Como foi a estréia de Adriane Galisteu no palco?
Ela estreou sob minha direção. Eu queria uma atriz de nome e não consegui. Me disseram para experimentar a Galisteu. Gostava dela como apresentadora. É uma mulher elegante e eu precisava de alguém assim. O papel não era muito grande nem difícil. Fiz dois ensaios com ela para ver as qualidades teatrais, noções de palco e impostação de voz. Ela foi muito bem. Parece que nasceu no palco. Pode-se dizer que Adriane é uma artista nata. Nasceu atriz, só precisa de bons diretores.

Na peça percebemos o seu vigor no palco. Como chegar a tantos anos de carreira e de idade com esse vigor?
Vou completar 86 anos, faltam quatro para 90, 14 para cem. Mas eu não penso assim, porque eu não sinto peso de tanta idade. Eu sei que é muita idade. Soa mal ao ouvido 86 anos. Mas eu sou uma pessoa de muita saúde. Nunca fumei e bebo esporadicamente um champanhe com alguém. É melhor do que atender um celular. Eu levo uma vida simples. Essa peça tem 76 páginas de texto. São 70 páginas só minhas. Eu canto muito. Todo dia eu canto um concerto com 15 a 20 músicas e tenho que sabê-las de cor. São shows interpretando a Piaf e a Amália Rodrigues. Tudo isso é uma questão de ter gente boa que trabalha com você.

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