20/08/2017

Há 46 anos festival dinamarquês mescla cultura viking com rock’n’roll

Por Felipe Branco Cruz, em Copenhague (Dinamarca)*
Publicado originalmente no UOL em 28/06/2017

A despeito do verão, que já chegou no hemisfério Norte, os noticiários da Dinamarca não economizaram nos adjetivos sombrios sobre a previsão do tempo deste final de semana no país. “O temporal será vingativo. Risco de chuva pesada e trovões”, noticiou o jornal “Copenhague Post”.

Os vikings, que viveram neste lugar há mais de 1.600 anos, certamente colocariam a culpa em Thor, o deus do trovão. Mas o tal mau tempo não está impedindo que aproximadamente 130 mil jovens europeus migrem em massa para Roskilde, a 35 km de Copenhague, para curtir o Roskilde Festival, o maior do norte da Europa.

Até 1443, Roskilde ocupou o posto de capital do país, depois transferida para Copenhague. A cidade de 50 mil habitantes, localizada no fiorde de mesmo nome e próxima de Kattegat (“Garganta de Gato” em dinamarquês), foi fundada na Idade Média pelos vikings, que dali partiam para as pilhagens dos países europeus.

Com tanta história para contar, não é de se estranhar a relação que os dinamarqueses têm com o lugar, especialmente com o Festival de Roskilde, criado em 1971 por dois estudantes hippies e atualmente tocado com ajuda de voluntários e de uma instituição sem fins lucrativos, cuja renda é integralmente revertida a instituições de caridade do país. Os voluntários, aliás, são um caso à parte, já que boa parte dos pais deles também foram voluntários no passado. “Se seu pai e sua mãe foram voluntários no festival de Roskilde, você também tem que ser”, disse um rapaz ao UOL.

O evento é tão tradicional que sua programação oficial começa quatro dias antes dos shows principais. Ou seja, desde sábado (24) bandas locais estão se apresentando no lugar. Mas é a partir desta quarta (28), que o Roskilde Festival começa pra valer, com bandas como Foo Fighters, Arcade Fire, The Weeknd, The XX, Justice, Anthrax, Royal Blood, The Jesus And Mary Chain e a cantora Lorde.

Os shows serão transmitidos ao vivo no UOL, em parceria com a Red Bull TV, que será responsável pela geração das imagens.

Rito de passagem

Tão tradicional quanto o festival é a sua lama, já que quase sempre chove em Roskilde. E não é um barro qualquer, não. É uma lama espessa e molhada, dessas de afundar o pé até o calcanhar. O dinamarquês sabe tão bem disso que nesta segunda era praticamente impossível encontrar uma bota de borracha boa e barata em Copenhague.

Nas três principais lojas de materiais de camping, localizadas próximas da estação de trem Nørreport, só sobraram os modelos mais caros, mesmo assim de numeração muito alta. “Já fui para o festival de Roskilde duas vezes. Na primeira, fui sem bota. Na segunda, fui com bota e poncho. São duas experiências completamente diferentes”, disse o vendedor, tentando convencer um cliente a comprar o equipamento.

Embora o Roskilde seja o maior festival do norte europeu e tenha atrações internacionais, ele é frequentado principalmente pelos jovens da Dinamarca e é visto como uma espécie de ritual de passagem para a vida adulta. Em Copenhague, era difícil encontrar um turista estrangeiro que soubesse da existência do festival ou que tenha vindo ao país só para isso. Um jovem canadense, por exemplo, se surpreendeu ao saber que o Foo Fighters era uma das atrações. “Uau. Não sabia. Este festival deve ser grande mesmo.” Porém, quando os questionados eram os dinamarqueses, todos eles tinham uma boa história para contar de Roskilde.

Por exemplo, no metrô de Copenhague, dois garotos explicaram à reportagem do UOLque a maioria das pessoas vai lá para passar perrengue mesmo, enfrentando um frio de 7°C à noite (e ainda estamos no verão) e dormindo acampados na lama e na chuva, em uma imensa fazenda nas proximidades do evento. “É um ritual de passagem. Depois de enfrentar tudo isso, você está preparado para a vida”, brincou um deles.

Evidentemente, essas dificuldades não são tão complicadas assim. Há uma estação ao lado do evento que funciona 24 horas por dia, com trens partindo de hora em hora para todos os lugares do país e não falta comida nem banheiro. Além disso, durante o verão nórdico, o sol quase não se põe. Às 4h30 ele nasce e só vai se pôr às 23h. Até as 21h, ele está brilhando tão forte que um brasileiro poderia achar que ainda são 16h.

“Roskilde é um festival de música. Mas a gente vai para lá para se divertir. Algumas pessoas nem assistem aos shows”, completou o outro rapaz. “É engraçado porque em Copenhague ninguém se diverte na rua, mas todos nós ficamos loucos em Roskilde”, completou.

Outra história sobre Roskilde virou notícia em Copenhague nesta terça. Pelo menos três grandes jornais estamparam em suas capas uma curiosa queixa sobre o festival, após as mães de duas meninas postarem no Facebook uma reclamação sobre os campings.

Os organizadores permitem ao público que acampe nas redondezas do lugar dias antes do festival começar. A treta ocorreu porque um grupo de amigos acampou em uma área insegura e, a pedido da organização, tiveram que se mudar para outro lugar.

Foi o suficiente para algumas mães reclamarem. “Muitos jovens, incluindo a minha filha, esperaram 24 horas até que pudessem acampar. Eles correram, como todos os outros, para encontrar um bom lugar para acampar, somente para serem retirados de lá, junto com outras 500 pessoas. Agora eles estão molhados e com frio”, escreveu uma delas.

O jornal Jyllands-Posten estimou aproximadamente 50 mil barracas montadas em diversos campings por pessoas com média de idade de 24 anos.

No Facebook, os jovens ridicularizaram as preocupações daquelas mães, além de promoverem uma campanha para que todos dessem cinco estrelas ao evento em sua página na rede social.

Em tom de deboche, um jovem postou a seguinte mensagem: “Terrível! Minha filha de 32 anos foi submetida a um terrível tratamento no festival. Ela montou a barraca e durante o evento tentou dormir, mas —e eu acho isso inapropriado— o lugar tem música alta e muito barulho durante a madrugada”.

Cidade Viking

A influência viking ainda é muito grande em Roskilde. Acredita-se que a cidade tenha sido fundada no ano 900 pelo rei Haroldo Dente-Azul. Não por acaso, o lugar abriga o Museu Dinamarquês do Barco Viking, que conta com embarcações originais, retiradas do fundo do mar, no Fiorde de Roskilde.

No último sábado, o festival de Roskilde organizou um blót, uma típica celebração viking, com música, dança, comida e cerveja. Na idade média, os blóts (bênçãos) eram eventos em que os vikings faziam sacrifícios humanos e animais para agradar aos deuses que, com o tempo, foi se transformando em uma grande festa.

No evento, sete bandas dinamarquesas de música folclórica viking se apresentaram ao redor de uma fogueira, acesa na margem de um lago. Além da música, também foram servidas comidas tradicionais. “Tragam seus capacetes, escudos, peles de cordeiros, e o que mais você precisar para compor seu look ‘casual viking’”, dizia um dos avisos.

Como deu para notar, embora o Festival de Roskilde abra espaço para atrações de todo o mundo, ele ainda faz questão de se manter fiel à tradição. Afinal, estamos em uma cidade com mais de mil anos de existência.

*O repórter viajou a convite da Red Bull Brasil

O que você achou dessa notícia? Comente