11/12/2017

Há 80 anos, uma reportagem desvendava (ou não) o brilhante futuro de Barra Mansa

Reprodução de uma foto de Barra Mansa em 1937, publicada no jornal “Gazeta de Notícias”

Em 1937, a “Gazeta de Notícias” mostrou como a cidade se tornou a maior produtora de leite do país. O que mudou desde então?

Por Felipe Branco Cruz
Publicado originalmente no Medium

Há 131 anos, o súdito português João Domingos Quintas protocolou junto ao Império do Brasil um pedido de naturalização. Seu sonho era se tornar brasileiro e barramansense. No documento, sua sensacional justificativa dizia que a “terra era tão boa e tão dadivosa que não pensava jamais sair de Barra Mansa”.

Não sei quem foi João Domingos Quintas, nem se ele fez alguma coisa importante para a cidade mas, como orgulhoso barramansense que sou, sei exatamente o magnetismo que ela nos causa.

João continuaria desconhecido até os dias de hoje se seu pedido de naturalização não tivesse sido arquivado pela biblioteca municipal de Barra Mansa e publicado em uma extensa reportagem do jornal carioca “Gazeta de Notícias” em 1937 exaltando a cidade (leia abaixo a reprodução).

Barra Mansa, a maior produtora de leite do Brasil: vista aérea da fábrica da Nestlé

A reportagem foi resgatada por Nikson Salém, da Academia Barramansense de História, e revela números impressionantes da produção agropecuária da cidade, colocando-a como uma das maiores produtoras de leite, café e algodão do país, numa época em que o presidente era Getúlio Vargas. Anos depois, Vargas construiria em Barra Mansa a maior usina de aço do Brasil, a CSN.

O texto é absurdamente bairrista (afinal, o Rio de Janeiro ainda era a capital do país) e, justamente por isso, muito divertido de ler. Como nesta frase, por exemplo:

“Há coisas neste grande Estado, que é o Estado do Rio, verdadeiramente novas, saborosas por seu ineditismo, sensacionais pela sua realidade. A produção láctea de Barra Mansa é uma delas”.

Não é uma frase maravilhosa?

Embora bairrista, o texto apresenta muitos dados que justificam tamanha exaltação. Por exemplo: sozinha a cidade produzia por ano 36 milhões de litros de leite, além de 70 mil arrobas de café (1000 toneladas), 30 mil arrobas de algodão (440 toneladas). Por dia, saíam dos “enormes moinhos”, instalados na zona central, cerca de sete mil sacos de farinha de trigo.

Sei que a cidade segue produzindo leite e café, mas não tenho a menor ideia se ainda há alguma produção de algodão ou farinha de trigo em escala industrial em Barra Mansa.

“A soberba avenida Joaquim Leite” em 1942

O texto aponta também outras qualidades, como “a soberba avenida Joaquim Leite” e “praças de singular beleza, como a ‘Ponce de Leon’”. Após ter lido esses elogios, caso você tenha ficado alguma dúvida, faço um alerta: a reportagem estava falando mesmo de Barra Mansa e não de praças e avenidas de Paris.

Além disso partiam 23 trens diários para as capitais e cidades do interior do Rio, São Paulo e Minas Gerais. Atualmente não há mais transporte ferroviário de passageiros no município, apenas os quilométricos comboios carregados com minério de ferro, vindos de Minas Gerais com destino a CSN, que continuam a atravessar de hora em hora o centro da cidade.

Não sei quanto tempo o repórter ficou por aqui, mas ele circulou bastante e citou até um monumento em homenagem ao centenário da cidade:

“No topo de uma coluna, em meio às árvores seculares de um jardim; uma águia altiva está prestes a levantar voo, simbolizando a imagem perfeita do progresso e do adiantamento de Barra Mansa, cujo futuro é tão grandioso, que só mesmo a audácia de uma águia real o poderia definir”.

Há quase cem anos, “a águia altiva prestes a levantar voo” está no mesmo lugar

Infelizmente, o título da reportagem — “Barra Mansa, seu extraordinário progresso e seu brilhante futuro” — não se mostrou tão profético assim. Dizia ainda que a cidade era a “Manchester Fluminense” e responsável por “forjar o progresso do país”. Os atuais moradores sabem que o otimismo do passado não existe mais, herança do tempo em que éramos governados pelo prefeito Mário Pinto dos Reis, hoje nome da rua que dá acesso ao colégio Verbo Divino.

Outro ponto que também merece destaque é a menção ao importante acervo da biblioteca municipal, fundada em 1873, responsável, entre outras raridades, pelo arquivamento do pedido de naturalização do português João.

Atualmente, na biblioteca, livros históricos estão mal cuidados, encaixotados na Fazenda da Posse, aguardando um lugar para serem disponibilizados para consulta pública. Em 1937, aqueles livros impressionaram o repórter, que apontou obras famosas da Europa, América e Brasil, no total de cerca de 3,4 mil volumes “cujas encadernações são igualmente boas e ricas”.

Recentemente, o prefeito Rodrigo Drable foi até Brasília em busca de dinheiro para a sua manutenção. Vamos ver se ele vai conseguir avançar nesta área.

Lamentavelmente Barra Mansa enfrentou nos últimos quatro anos um dos piores períodos de sua história, sob o governo de Jonastonian Marins (PCdoB), que não fez nada pela cultura da cidade muito menos pela biblioteca. Bem diferente daquele clima festivo do início do século 20.

Mas o ano de 2017 começou com as esperanças renovadas no novo prefeito. Assim como no passado, continuamos orgulhosos da nossa cidade. Resta saber se agora, enfim, vamos concretizar a tão sonhada “marcha vitoriosa de Barra Mansa, legítimo florão de orgulho para o Estado do Rio de Janeiro” citada com tanta pompa na reportagem de 1937.

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