11/12/2017

Jornal dinamarquês inova e encena no teatro as principais notícias do dia

Por Felipe Branco Cruz, em Copenhague 
Publicado originalmente no UOL em 14/07/2017

Ele amava balé, mas escondia seu hobbie da namorada porque ela achava que a dança não era coisa de homem. Os amigos percebiam seu sofrimento por ele não conseguir se expressar e fazer aquilo que mais gostava. No fim, ele enfrentou o preconceito e contou para a namorada. Ela não aceitou e terminou o relacionamento. Ele superou o término, encontrou outra mulher que o aceitasse e hoje está feliz.

A dramática história real descrita acima até parece um roteiro de filme de Hollywood sobre superação e busca dos sonhos, mas virou um artigo de jornal, escrito pelo jornalista-bailarino do periódico dinamarquês Zetland, de Copenhague. O enredo da história era tão bom, que transcendeu as letras e foi parar nos palcos do país, narrado pelo próprio autor dentro do projeto “Zetland Live”. Com direito, inclusive, a uma surpresa no final, após arrancar o terno e a gravata e, de collant, dançar para um atônito público, formado principalmente por assinantes do jornal.

Fundado há cinco anos por Jakob Moll, Silke Bock, Hakon Mosbech e Lea Korsgaard, que já tinham experiência em grandes jornais do país, o Zetland percebeu que para resolver a crise que o jornalismo está vivendo era preciso inovar. O periódico é totalmente financiado pelo seus sete mil assinantes que pagam cerca de 13 euros por mês. Ao todo, o jornal publica apenas cinco grandes reportagens por dia, buscando sempre um enfoque diferenciado da informação e um contato mais próximo com o leitor.

Daí veio a ideia: “E se levássemos as notícias para o teatro?”, diz Karin Gottlieb, responsável pelo projeto, que conversou com o UOL em um café de Copenhague, bem ao lado do tradicional Nørrebro Theatre, fundado em 1886, onde algumas peças do Zetland já foram encenadas.

“A Dinamarca tem jornais com mais de 100 anos. O Zetland é muito novo e só tem edição digital. Mas o leitor quer estar próximo do jornalista e nós queremos nos encontrar com os nossos leitores fisicamente”, explica Karin. “As peças são únicas, encenadas só uma vez, igual a um jornal que no dia seguinte já está antigo. No palco, temos todas as seções de um jornal: carta ao leitor, artigos, reportagens, fotos e até obituários”. Atualmente, 33 pessoas trabalham no Zetland, sendo que 25 delas são jornalistas.

Boas histórias

De acordo com Karin, essa nova abordagem transformou o Zetland em referência no país e as notícias contadas por eles são lembradas pelos leitores por anos. “A peça vira um evento social. Jornalista não é dono da verdade. Tentamos saber o máximo possível, mas somos servos da notícia e não os senhores dela. A media precisa ser mais humilde para que as pessoas voltem a acreditar na gente”, afirmou Karin, que comparou as apresentações como uma mistura de TED (evento de palestras americano) com um show de cabaré.

Embora ocorra no teatro, as apresentações não são propriamente uma peça tetral. Todas as notícias são apresentadas pelos repórteres que a apuraram e cada um decide como vai contá-la. “Usamos técnicas de luz, som, projeção de imagem, animações”, diz. “Ao todo, apresentamos cerca de 10 a 15 histórias por evento”. No palco, já foram encenadas peças musicais, com diversos instrumentos, exibidos documentários com emocionantes declarações dos correspondentes de guerra, números circenses e o que mais puder ser transposto para a cena.

Karin cita uma entrevista feita ao vivo com um pesquisador dinamarquês que inventou uma máquina que esquenta pessoas congeladas (algo bem útil em um país frio como este). Para ilustrar, o repórter contou a história da norueguesa Anna, que caiu em lago e congelou quase que instantaneamente. Dada como morta, ela foi ressuscitada pela nova técnica, quando teve seu sangue reaquecido. “Enquanto o jornalista entrevistava o pesquisador, soltávamos fumaça no palco e luz azul para passar o clima gelado”, lembra.

Outra história tensa apresentada ao vivo foi a de um ataque de urso na Groenlândia, sofrido por dois pesquisadores dinamarqueses. “O repórter entrevistou no palco um dos pesquisadores e, enquanto ele narrava a história, nós projetávamos cartuns em um telão ilustrando os fatos. O resultado foi bem dramático, com ares noir”. No caso, o pesquisador contou como salvou o colega e matou o urso no momento do ataque. “Levantamos várias pontos: em um caso como este, seria correto matar um urso que está em risco de extinção? Era matar ou morrer”.

Não dá lucro

As peças do Zetland ainda não dão lucro, porém não dão prejuízo. “É um investimento. Nosso maior retorno não é financeiro. Reforçamos a nossa marca com os nossos leitores e contamos histórias de uma maneira completamente diferente. Não temos anunciantes nem patrocinadores. Nosso investimento é para ter cada vez mais assinantes e leitores fiéis”, afirma Karin.

A primeira apresentação ocorreu em 2012 para 100 pessoas. Ao todo, já foram mais de 12 edições. Só em 2016, eles fizeram três shows em maio e quatro em novembro, com uma média de 600 pessoas por dia. Neste ano, está prevista uma nova apresentação no dia 3 de outubro, no Royal Theater, que tem capacidade para 1,4 mil pessoas. “As notícias sérias não têm que ser chatas. Notícias sérias podem entreter profundamente”, analisa.

Os assinantes do jornal não pagam a entrada, mas as peças são abertas também para o público, que paga entre 110 e 350 coroas dinamarquesas (cerca de R$ 55 a R$175).

Talvez, a única coisa que falte neste jornalismo que não pode ser transposto para os palcos, é a seção de comentários dos leitores. Mas para isso, Karin tem a solução. “Ao final do show, convidamos todos para tomar cerveja conosco no bar. Lá, eles podem nos contar o que acharam da apresentação, pegar no ombro da editora-chefe e dizer o que pensa. É um contato muito próximo e muito eficiente. É um evento social”.

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