21/09/2018

Filmefobia: Medos privados em lugares públicos

Em ‘Filmefobia’, Kiko Goifman expõe fobias reais,
sem revelar o que é atuação e o que é verdade

Por: Felipe Branco Cruz

Em uma das passagens do livro 1984, de George Orwell, o personagem Winston Smith, que tem fobia por ratos, é levado ao temido Quarto 101, onde é submetido a várias torturas, sem revelar nenhum segredo aos carrascos. Até que amarram sua cabeça a uma gaiola repleta de ratos. Sua reação, neste momento, é indescritível e, só então, ele sucumbe. Em Filmefobia, longa dirigido por Kiko Goifman, que estreia hoje, vários fóbicos reais são expostos a suas fobias. Em uma dessas cenas, assim como em 1984, um homem é deitado completamente nu em uma cama de ratos. Gritos, lágrimas e desespero ficam estampados nas reações da pessoa.

O trabalho, no entanto, é uma ficção, e não um documentário. “Filmamos três tipos de grupos, fóbicos reais, atores e atores fóbicos. Mas não é um filme de terror e as pessoas aceitaram de livre e espontânea vontade participar”, diz Goifman, que tem fobia de sangue e desmaiou duas vezes durante as filmagens. Em uma cena, ele joga pôquer com cartas de baralho ensanguentadas. Não por acaso, todo o material de divulgação, dos cartazes aos folders, são com imagens de pessoas sangrando.

A história do filme trata da obsessão do cineasta Jean-Claude, que acredita que a única imagem verdadeira é a do fóbico diante de sua fobia e, por isso, decide expor as pessoas e registrar suas reações. Nesta busca pela “verdadeira imagem”, o cineasta Zé do Caixão aparece em algumas cenas para dar sua opinião. “Se uma pessoa entra nessa situação, normalmente ela quer ultrapassar o medo. Ela quer se libertar”, diz Zé, enquanto analisa a imagem do homem na cama com ratos.

O filme mostra pessoas com fobias de aranha, avião, palhaço, agulhas, sangue, pombo, anões, penetração e até botões. “O curioso é que depois que exibimos o filme em um festival, outras pessoas vieram nos dizer que tinham fobias por botões”, diz Goifman.

Algumas cenas beiram o cômico, como um anão correndo nu por uma praia ou uma pessoa sendo alvejada por botões de camisa. A parte insólita, claro, fica por conta do palhaço. “Pegamos um fóbico real de palhaço, mas durante a gravação ele não demonstrou seu medo”, explica Goifman. Jean-Claude, que acompanhava a sessão, reclamou. O fóbico disse que se tratava de sadismo e Jean-Claude retrucou argumentando que se submeter a isso estava mais para masoquismo. No meio da discussão, aparece o palhaço, já irritado com tudo, e solta a pérola: “Vão parando com essas brigas aí. Dá licença” e sai de cena.

Já outras imagens são mais fortes, como a de mulheres que têm medo de agulhas, cobras e lesmas. “Algumas cenas foram feitas com atores”, diz Goifman, sem revelar quem está apenas interpretando ou sofrendo de verdade. “Descobrimos essas fobias por meio de e-mails dos internautas.”

Um outro detalhe que o diretor faz questão de deixar explícito no filme é a doença irreversível que Jean-Claude enfrenta na vida real: ele é soropositivo, está ficando cego e periodicamente toma injeções no globo ocular para retardar o avanço da cegueira. “É um problema muito doloroso, pois ele é um crítico de cinema”, diz o diretor, que defende seu filme. “É um trabalho polêmico. Cada um interpreta as cenas de um jeito. Essa instabilidade motiva as pessoas a irem ao cinema.”

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