25/06/2017

‘Misturo Zé Ramalho com AC/DC’, diz Landau sobre novo disco

Por: Felipe Branco Cruz
Entrevista exclusiva para o Bedelho.com

O novo álbum “Casca Grossa” de Flavio Landau é rock and roll da melhor qualidade. Nascido em Alfenas (MG) há 35 anos (ele faz 36 no dia 14 de maio), o cantor tem na cidade sua principal fonte de criatividade para o som que faz. Mesmo vivendo há 12 anos em São Paulo, não perdeu o sotaque mineiro. Com seu indefectível chapéu e autodenominado agroboy (ou roqueiro da roça), suas influências vão do brega ao hard rock dos anos 70 com UFO, Creedence Clearwater Revival, Steppenwolf, além dos brasileiros Raul Seixas e Zé Ramalho. Em entrevista exclusiva ao Bedelho.com (leia abaixo) o artista revelou que faz aquilo que o irmão mais famoso não consegue fazer: tocar em lugares pequenos.

Flavio Landau é o irmão caçula de Wilson Sideral e Rogério Flausino (vocalista do Jota Quest), que é seis anos mais velho. “Nos encontramos bastante. Os dois (Rogério e Wilson) agora são pais de família e a gente fala mais das contas para pagar e das fraldas das crianças do que de música”, disse o cantor, que ainda não tem filhos. “Quando ele (Rogério) cantava Cazuza, Barão Vermelho e Jamiroquai, eu ouvia Metallica e tocava percussão numa dupla sertaneja. Eu tinha 16 anos e o Rogério 21. Ele nem tinha se mudado para Belo Horizonte ainda”, lembra. “Era tudo diversão. A gente saía para as festinhas dos amigos para tocar, passear e ‘catar muié'”.

“Casca Grossa” é o sétimo disco autoral do músico e as canções mostram um artista maduro, com composições elaboradas e melodias bem estruturadas. Com quase 15 anos de estrada, é possível perceber influências que vão desde Motörhead a Zé Ramalho, como na quinta faixa do álbum: “O Bem e o Mal”. E o cantor avisa. Seu som é bem diferente do irmão famoso. “O Rogério é do pop. Eu gosto de misturar Chrystian & Ralf com Nirvana”. Suas músicas vão além do tradicional guitarra-baixo-bateria para apresentarem também banjo e percussão. O resultado é uma pegada blues e hard rock.

O novo clipe, que pode ser visto abaixo, é simples. Nele, o cantor aparece caminhando em um descampado acompanhado de dois artistas. E, se você ficou curioso para ouvir o disco inteiro, Landau disponibilizou o álbum completo no YouTube, que também pode ser ouvido abaixo.

Capa do disco "Casca Grossa"
Capa do disco “Casca Grossa”

Bedelho entrevista Flavio Landau:

Mesmo morando há 12 anos em São Paulo, você ainda não perdeu o sotaque de Alfenas.
Sou nascido e criado em Alfenas. O Sul de Minas vai ser sempre a nossa casa. Mas tenho uma afinidade muito grande com São Paulo. Aqui eu encontrei um monte de gente parecida comigo, gente que veio do interior cheia de vontade de compor, da fazer acontecer. São Paulo é uma cidade de excessos e eu adoro isso. Acho que combina com a minha caipirice.

É de Minas Gerais que vem a inspiração para compor?
As letras e as coisas das quais eu falo são sobre sair de casa, com a viola no peito. É isso mesmo! A vida em Minas Gerais é muito boa e você acaba se acomodando com o café doce e o pão de queijo bão. Eu estou com 15 anos de carreira e esse é meu sétimo disco autoral. Eu consegui colocar um pouquinho de mim nele. Tudo que eu gosto, desde Zé Ramalho e Raul Seixas, passando pelo hard-rock dos anos 70 que eu sou muito fã. Mas não me considero um músico virtuoso. Eu toco música. Acho que consegui misturar Bon Jovi com Amado Batista. Green Day com Sérgio Reis e Zé Ramalho com AC/DC.

Você disponibilizou o álbum inteiro de graça no YouTube. Ninguém compra mais discos?
Eu tenho feito isso desde 2008. Disponibilizar na internet é menos burocrático e te deixa mais perto do público. A maior dificuldade do artista independente é formar um público e você consegue formar esse público na internet. Eu tenho um carinho especial com esse disco. Ele foi feito em São Paulo com uma supervisão de um americano. Foi um disco rápido. Gastamos 150 horas de estúdio. Isso não é nada. Usei elementos diferentes, banjo e timbragens.

Você diz que seu som é rock da roça. Você curte também sertanejo universitário?
Sou mais rock and roll do que essa turma mais nova. Minha bagagem é mais rock setentista, coisa que o sertanejo universitário não tem. Acho que as casas de shows deveriam dar opções para a meninada escolher. Não dá para ir num lugar e só ouvir o que está na moda para atrair multidões. A molecada gosta de tudo, desde Raul Seixas até Katy Perry. O Brasil é muito plural, não dá para um grupo fazer panelinha e falar mal do outro, quem perde é o público. O bom do Brasil é misturar todos os estilos. Aqui o roqueiro toca samba, maracatu, qualquer coisa.

“Pé na Estrada” é primeiro clipe do novo disco. Ele é bem simples, como foi feito?
Foi feito em Arraial D’Ajuda, na Bahia, onde a minha noiva mora. Eu vou muito para lá e todo mês eu me apresento em uma casa noturna de lá. Numa dessas idas, resolvemos fazer uma brincadeira que deu certo. Fazia 40 graus nesse dia. Fizemos três takes e que se dane a coisa técnica. Fomos na paixão. “Pé na Estrada” resume tudo que tem no disco. Tem guitarra, banjo, um refrão que é meio Bon Jovi.

No álbum você também fez cover de “Eu Sou Terrível”, do Erasmo Carlos. Porque escolheu essa música?
Ela é demais. Eu tenho uma afinidade muito grande com o Erasmo. Ele é bem mais roqueiro que o Roberto Carlos. Gosto mais das letras dele, dessa coisa dele falar em primeira pessoa. Eu tive a liberdade de mexer no arranjo original e deixar com uns slides e mais blues rock. Regravar Erasmo e Roberto é muita responsabilidade.

Você se considera mais roqueiro que seu irmão, o Rogério Flausino?
Sou muito mais roqueirão do que ele. Gosto de misturas diferentes. Sou fã demais do Chico Science, do Sepultura que mistura heavy metal com Luiz Gonzaga e do Raimundos que misturou rock com baião. Só no Brasil que conseguimos misturar essas coisas. É por isso que a música brasileira é a mais legal do mundo. Americano não toca samba.

O que você pode fazer que seu irmão famoso não consegue?
Um show para 200 pessoas. Eu gosto disso. Faço um trabalho de formiguinha, sem exagero. A minha coisa é viver bem. Talvez eu não fique entre os dez mais tocados da rádio, mas faço um rock para agradar um pessoal mais parecido comigo. Meu grande objetivo é ir em lugares que meu irmão não vai. Lá em casa cada um tem a sua turma. Todos nós respeitamos muito os trabalhos individuais. Isso nos faz ser mais irmãos do que músicos. Se tocássemos juntos iria acabar a família.

E no almoço de domingo da família, do que vocês conversam?
Os meninos (Rogério e Wilson) são pais de família. Eu estou noivo. Faz tempo que a gente não senta para falar de cerveja e música. Falamos de fraldas e da conta pra pagar no final do mês. Nossa relação musical é boa. Nós nos completamos. Não ouvimos as mesmas coisas. Eu ouço country rock. O Rogério gosta de black music e música eletrônica. Respeitamos essa individualidade.

As pessoas comparam você com seu irmão?
Não dá para comparar. O Rogério me fala que se ele tivesse mais tempo, ele queria ser como eu. Sabe? De ouvir coisas diferentes. Mas ele responde por uma banda, cinco caras querendo a mesma coisa mas cada um de um jeito. No Rock in Rio, por exemplo, o Rogério tocou naquele palco grande. Eu queria tocar no palco menor, o Rock Street. Eu não tenho tanta ambição. Se eu viver de música e pagar as contas, tá bom demais.

Assista ao videoclipe “Pé na Estrada”

Ouça o disco completo “Casca Grossa”, de Landau

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