19/08/2017

Morre aos 60 anos, Geneton Moraes Neto, um dos maiores jornalistas do Brasil

Por Felipe Branco Cruz

Em 2007 eu era um jornalista recém-formado e ávido por aprender com os melhores. Na época, eu morava em Copacabana e sabia que o Joel Silveira (o maior jornalista do Brasil) morava no bairro. Procurei na lista telefônica seu número e liguei. Queria conversar e aprender. Joel conversou comigo, contou boas histórias e me disse: “Esse [Geneton Moraes Neto] é um grande repórter! Para mim, hoje, é o maior repórter do Brasil.”. Joel, infelizmente, morreu um mês depois.

Fiquei com aquilo na cabeça. E liguei pra redação do Fantástico, onde Geneton trabalhava e pedi pra falar com ele. Geneton me atendeu e me convidou para ir lá bater um papo. Fui com a amiga Cris Camargo e o que era para ser um bate-papo de 30 minutos durou quase 4 horas. Foi uma aula de jornalismo que nunca esqueci. Foi um privilégio conversar com ele. Virei fã!

Soube com tristeza que Geneton morreu no dia 22 de agosto aos 60 anos. Uma imensa perda para o jornalismo brasileiro. Nos últimos anos, Geneton produziu incríveis reportagens para a Globo News e lançou livros essenciais para entender o país. A entrevista que ele fez com o Collor, onde o ex-presidente afirma que pensou em se matar após o impeachment, me marcou até hoje.

Para os jovens – e experientes jornalistas – deixo aqui algumas lições que o Geneton me ensinou naquela tarde de 2007, na redação da TV Globo, no Jardim Botânico.

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Com vocês, o professor Geneton:

“Se houvesse justiça na hierarquia interna dos jornais o repórter deveria vir antes do dono do jornal no expediente, porque sem repórter não existe notícia”.

“Acho que existe isso e, em alguns casos, por parte de jornalistas que se comportam como se o muro de Berlim ainda não tivesse acabado. Eu sinto muito, mas o muro de Berlim caiu! (risos) É engraçada essa imagem meio romântica do jornalismo, de que a gente está sempre vendo grandes acontecimentos, mas as cenas realmente inesquecíveis são raras”.

“Quando eu faço qualquer coisa, tenho a saudável pretensão de produzir informação a curto prazo e memória a longo prazo. Eu acho que cada um precisa criar – e vou dizer aqui algo que vai soar como livro de auto-ajuda – uma lenda pessoal. A mitologia que criei para mim, como jornalista, é esta pretensão de produzir coisas que possam criar memória; que possam ser consultadas a longo prazo.””

“Existe principalmente um outro fenômeno: qualquer pessoa hoje – e nem precisa ser jornalista – pode ser um emissor de informação. Acho que isso dessacralizou completamente o jornalismo. Qualquer pessoa que abrir um blog agora, ou daqui a 15 minutos, e colocar lá uma notícia verdadeira ou falsa, ela poderá ser consultada daqui a 5 minutos em Hong Kong.”

“Eu digo, brincando, que um dos riscos que o jornalista corre depois de um certo tempo de exercício na profissão é o seguinte: de tanto lidar com o extraordinário, com o incomum, ele corre o risco de um dia cair na tentação de achar que nada é notícia; que nada mais é incomum ou extraordinário e nada interessa”.

“Já virou até folclore nas redações a figura do “derrubador de matérias”. Acho um absurdo aquele dinossauro que passa o resto da vida bombardeando o que os repórteres fazem. Coitados! Os repórteres chegam da rua com o entusiasmo da notícia e tem sempre um jornalista entediado que vai dizer que aquilo não é notícia porque já saiu em outro lugar”

“Tento criar uma proteção em torno de mim para não ser contaminado por essa doença que eu até batizei, brincando, de “síndrome da frigidez editorial” porque é uma coisa que acomete os jornalistas antigos. Acho que vou até registrar essa doença na Organização Mundial de Saúde para ser catalogada (risos). Porque isso existe, mesmo. Não é exagero não””

“eu cansei de ver um outro pecado de jornalista: o que faz jornal, programa de TV e programa de rádio para jornalista. É um dos pecados mortais da profissão. Você participar de uma reunião de pauta, um repórter sugerir um assunto obviamente interessante e aparece alguém e diz “ah, não vamos fazer essa matéria porque o Caderno 2 do jornal lá do interior publicou dez linhas sobre isso”. Então derruba um assunto. O jornalista parte do pressuposto absurdo de que o leitor é tão fanático quanto ele e vai ler todos os jornais e revistas e comparar um com o outro. Isso é uma idiotice! Quem pensa deste jeito, eu acho que, sinceramente, devia mudar de profissão e estudar para Arquitetura ou Medicina”

” dificilmente haverá profissões tão divertidas quanto o jornalismo porque, na prática, às vezes quando me vejo diante de uma personalidade, sei que jamais teria a chance de entrevistá-lo, ou de ver uma cena histórica como a do Gorbachev, ou entrar num presídio de segurança máxima nos EUA, como já entrei, ou entrevistar um astronauta que já pisou na lua, se não estivesse exercendo o jornalismo. Alguém já disse que jornalista é um especialista em generalidades – sabe um pouco sobre tudo mas não sabe profundamente sobre nada. É isso: eu acho que é um “curso” divertido de generalidades, onde você é seu próprio professor.”

“O importante é o jornalista não brigar com a notícia. Tratar a notícia com reverência. Isso é uma das dez mil lições que aprendi na convivência com Joel [Silveira]. É como um crente a entrar no Vaticano. Você se sentir pequeno, olhar para o teto do Vaticano e se sentir minúsculo. É meio como a atitude do repórter diante da notícia: não brigar com ela, mas reverenciá-la, de preferência.”

“Dificilmente haverá outra profissão em que exista tanto sentimento e que você passe com tanta rapidez da euforia ao desânimo, em tão pouco tempo. Num dia você diz “estou fazendo a melhor profissão do mundo” e, no dia seguinte, você pergunta “meu Deus do céu, por que eu não fui fazer outra coisa?” (risos). É muito fugaz essa coisa do jornalismo. Aquela “glória”, entre aspas, do jornalismo dura minutos. Se durar um dia você já pode acender uma vela (risos). Aquele furo de reportagem que você pensa que vai mudar o mundo, derrubar um papa, um presidente da República, aquilo tudo desaparece em 15 segundos. Televisão, então, é o tempo da pessoa comer uma pizza, ir à cozinha beber água, e o trabalho que você demorou, às vezes, semanas para fazer, literalmente se evapora no ar.”

“Tem uma frase do Evandro Carlos de Andrade, que foi diretor de jornalismo aqui da TV Globo: ele dizia que se Deus entrasse na redação do Jornal Nacional iria se sentir humilhado (risos). Ele dizia isso, obviamente brincando, para ilustrar essa vaidade exagerada dos jornalistas e a noção de que é mais importante do que é na verdade.”

“Tem uma história onde um jornalista vira pro outro e pergunta: “Você pode me dizer o que eu penso sobre esse assunto, por favor?” antes de escrever o artigo (risos). Esse é o lado mais folclórico da redação. É possível fazer uma enciclopédia sobre isso. O Joel contava que um dia ele estava concentrado, batendo à máquina na redação de um jornal, com aquele ar grave, achando que iria mudar a história da humanidade, e o Nelson Rodrigues parou na frente dele, com aquele cigarro no canto da boca, ficou olhando sem dizer nada, virou-se e, quando Joel levantou os olhos, Nelson falou: “Patético!”. E foi embora. Eu sempre tento me guiar por isso para sempre ter a noção de que a gente é um pouco patético, mesmo, mas continua datilografando, sem problema.”

“A tendência, hoje, são audiências minúsculas, divididas, repartidas em milhões de pequenas partículas, e é o que se chama de nanoaudiência. Os blogs são pequenas audiências. Milhões de blogs e todos eles tendo pequenas audiências, ao contrário de antigamente quando era apenas uma pessoa falando para milhões ao mesmo tempo. Então achei bom ter mil visitas, mas temos altos e baixos. Eu fiquei na dúvida também sobre o quanto valeria a pena, mas resolvi esquecer esse lado. Eu disse: “Sabe de uma coisa? Tem gente que faz peça de teatro para uma ou duas pessoas. Por que a gente não pode escrever para uma ou duas pessoas também? Então vamos continuar”.”

“No meu delírio, fico imaginando um teatro (risos). Aí alguém me diz: “Tem trezentas pessoas” e eu fico imaginando “meu Deus do céu, eu jamais subiria num palco na frente de trezentas pessoas para falar, pois sou um péssimo orador”. Mas escrever para 300 pessoas lerem, para mim está ótimo. Não tenho esses delírios megalomaníacos de ficar imaginando que o Brasil inteiro vai ler as bobagens que a gente escreve. A gente tem feito aquela brincadeira “Quem continua solto?” – de vez em quando eu pergunto “Fulano de tal continua solto?”, “o Senado continua solto?”. Até já esgotei um pouco a lista de todas as implicâncias que a gente tem. Tenho que renovar um pouco a lista.”

“Em jornalismo aprendi o seguinte: não se desperdiça uma chance. Joel ficou constrangido de abordar Hemingway, que estava bebendo em um bar em Paris, no pós-guerra. Ele até disse, brincando, que o pior que poderia acontecer seria levar um soco e ser o primeiro jornalista brasileiro a apanhar de Ernest Hemingway. Por constrangimento, perdeu esta chance de abordá-lo. Também tenho minhas frustrações, no sentido de que deveria ter insistido mais com algumas figuras, como Glauber Rocha, por exemplo, que era meu ídolo. Tive a chance de conhecer Glauber Rocha quando estudei cinema em Paris, durante uma sessão exclusiva para críticos franceses de “A Idade da Terra”, no início de 81. Glauber já estava doente e isso me deixou meio constrangido de insistir em uma entrevista com ele”

“Chico Buarque também teve um problema: ele deixou de falar com o Fantástico por minha causa. Ele tem horror de jornalista. Fizemos uma entrevista com ele, e ele foi super afável e bem humorado. Pelo clima, foi quase uma conversa de boteco. Chico disse que o pai falava isso: que tinha tido um caso na Alemanha e deixou um filho lá. Perguntei a ele: “É verdade essa história?”. Ele disse: “È. Meu pai teve esse caso e até brincava: como tinha a pele muito alva, quando estava na Alemanha, perguntavam a ele: ‘O senhor é filho de alemão?’ e ele respondia ‘não, eu sou pai de um’ “. Daí saiu dentro do Fantástico uma chamada sobre este irmão de Chico Buarque. É a velha diferença entre a cabeça do artista e a do jornalista. Lógico que ele esperava que a matéria fosse sobre o clipe que ele estava fazendo. Mas saiu aquela chamada com a voz do Cid Moreira, algo nessa linha: “Daqui a pouco, a história do irmão que Chico Buarque não conhece, na Alemanha”.

Leia a entrevista completa aqui.

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