15/12/2017

‘Não percebi que estava vivendo algo histórico’, diz fotógrafo de Woodstock

Por Felipe Branco Cruz, em Indio (Califórnia, EUA)
Publicado originalmente no UOL em 10/10/2016

Henry Diltz já tinha fotografado muitas doideiras no mundo do rock quando foi contratado em 1969 como fotógrafo oficial do Festival de Woodstock. Mas nada o havia preparado para o que ele e outras 500 mil pessoas testemunharam entre os dias 15 e 18 de agosto daquele ano em Bethel, no interior do estado de Nova York.

De uma privilegiada posição no palco, Diltz fotografou lendas como Jimi Hendrix, Grateful Dead, Janis Joplin, The Who, entre tantos outros. Mas só percebeu que o festival tinha saído do controle quando a comida acabou e a multidão tomou conta do lugar. “Para comer, tivemos que colher repolho e arroz integral em uma plantação ao lado. No primeiro dia, eu não percebi que estava vivendo algo histórico. Só depois, quando vimos uma foto aérea publicada no ‘The New York Times’ é que caiu a ficha. Estávamos no olho da tempestade”, conta Henry, em entrevista ao UOL.

Cerca de 200 imagens de Henry e de outros 13 fotógrafos que registraram os anos áureos do rock e da contracultura americana estão em exposição em um espaço de 36 mil m² dentro do festival Desert Trip, na Califórnia. O festival ocorre neste final de semana e no próximo e conta com shows de Paul McCartney, Rolling Stones, Bob Dylan, Roger Waters, The Who e Neil Young.

Entre os nomes de peso da exposição estão Michael Cooper, que fez fotos para o álbum “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, e “Their Satanic Majesties Request”, dos Rolling Stones; Elliot Landy, que até hoje vive em Woodstock e acompanhou os anos áureos de Bob Dylan; e Terry O’Neill, que fotografou os Beatles e os Rolling Stones no início da carreira em 1963.

Embora a exposição seja grátis para o público do festival, entrar na tenda não foi fácil: era preciso enfrentar uma fila de quase uma hora sob o inclemente sol do deserto californiano. Mas a espera valeu a pena.

Fotógrafo por acaso
capa-do-disco-morrison-hotel-do-doors-1476028808120_300x300Henry Diltz, 78, perambulava pela exposição conversando com os fãs, posando para fotos e autografando algumas imagens sem perder o bom humor. Hoje ele é dono da galeria Morrison Hotel, com lojas em Los Angeles e Nova York e acervo de mais de 100 artistas diferentes. A galeria empresta o nome do disco de 1970 da banda The Doors, com foto do próprio Diltz.

Henry revelou que virou fotógrafo por acaso. “Na década de 1960, eu fundei com amigos o Modern Folk Quartet e fizemos algum sucesso, até que comprei uma câmera amadora e comecei a registrar a nossa vida louca. A banda não deu certo, mas eu continuei acompanhando as turnês de amigos como David Crosby, Stephen Stills e ‘Mama’ Cass Elliot”, lembra.

Para ele, a diferença entre as suas imagens e a de fotógrafos profissionais é a paciência. “Fotógrafos profissionais são muito ansiosos para fazer ‘aquela’ foto. Mas o ritmo dos músicos é diferente. Como eu também sou músico, sei que eles gostam de acordar tarde, trabalhar de madrugada e beber no bar. Leva horas para algo interessante acontecer, mas eu sempre estou por perto”, diz.

Foi num desses momentos que a capa do álbum “Morrison Hotel” foi feita. “O hotel era uma espelunca, mas a banda queria fazer uma foto lá dentro por causa do nome. Quando chegamos lá, o atendente não nos deixou fazer a foto no lobby e foi chamar o gerente. A recepção ficou vazia e então eu tive a ideia de ir até a rua, que é pública, e fotografar a fachada com a banda olhando pela janela. Foi tudo muito rápido, enquanto o atendente não voltava”, lembra Diltz. “Ficou até melhor do que se eu estivesse dentro do hotel”.

Das atrações do festival Desert Trip, Diltz só não fotografou Roger Waters. “Ele não gosta de ser fotografado”, explica. Ao todo, suas fotos já estamparam a capa de 200 discos, mas sua favorita é a do primeiro trabalho de Crosby, Stills & Nash, de 1969. “Eles estão sentados no sofá, em frente a uma casa velha. É um álbum incrível, com lindas harmonias”, lembra.

Já a foto de capa mais bonita já feita, na opinião dele, não é sua: é a de “Rubber Soul”, dos Beatles. “Aquele efeito deixou a foto com a sensação de que ela está dançando. É muito psicodélica. Amo”, revela.

Antes de encerrar a conversa e voltar a atender outras pessoas na exposição, Diltz brincou e disse que gosta de fazer fotos de outras três coisas: “tits, tattoos and t-shirts” (na tradução: peitos, tatuagens e camisetas). “Antigamente era mais difícil achar tatuagens. Hoje todo mundo tem. Gosto também de ver as meninas bem à vontade nos shows, de topless. É tão bonito… Porque não fotografá-las, não é? Mas, o que eu gosto mesmo é de fotografar camisas de rock. Elas são super criativas. Tenho milhares de imagens e ainda vou lançar um livro sobre elas”, revela.

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