14/11/2018

O menino que domava búfalos

‘Milagre em Sta. Anna’, de Spike Lee, fala da
luta na Itália entre nazistas e negros americanos.

Por: Felipe Cruz

Eternizada nos versos Lutando pela sobrevivência / Disse que ele era um Buffalo Soldier / E venceu a guerra pela América (em tradução livre), da canção de Bob Marley, a 92ª Divisão Buffalo Soldier, do exército norte-americano, é mais do que a protagonista do filme Milagre em Sta. Anna, dirigido por Spike Lee, que estreia amanhã nas telonas da cidade.

O batalhão de mais de 15 mil soldados negros enviado à Europa durante a Segunda Guerra Mundial, entre agosto de 1944 e novembro de 1945, para lutar e morrer nas linhas de frente, é retratado no longa como um corajoso grupo de militares. Nas montanhas italianas, os combatentes descobrem que existem lugares do mundo onde, mesmo em guerra, não se distingue a cor da pele. Em uma das cenas, um soldado confessa ao companheiro que se sente mais em casa num país estrangeiro do que no próprio.

Baseado no livro homônimo de James McBride, que também assina o roteiro, o enredo tem como ponto de partida a história real do massacre de 560 pessoas (a maioria mulheres, crianças e idosos) da vila de Sant’Anna di Stazzema, na província de Lucca, na Itália, em 4 de agosto de 1944, por soldados alemães da 16ª Divisão Panzergrenadier SS. Depois de fuzilarem as pessoas, os nazistas atearam fogo aos corpos. O fato é, até hoje, lembrado pelos italianos. No local do massacre, em frente à igreja de Sant’Anna, foi construído um monumento às vítimas.

O filme começa nos dias atuais, quando o soldado Hector Negron (Laz Alonso), agora um exemplar funcionário dos correios, mata um cliente a sangue frio. Ninguém entende o motivo do assassinato e Negron acaba internado em um sanatório. Até que um repórter policial vai cobrir o caso e, durante a investigação, descobre que Negron guarda em sua casa um tesouro: uma cabeça esculpida em mármore, pedaço da ponte Santa Trinita, de Florença, desaparecida desde a Segunda Grande Guerra.

A partir daí, o filme retorna ao período dos combates para contar a história de Negron, dos sargentos Aubrey Stamps (Derek Luke) e Bishop Cummings (Michael Ealy) e do soldado Sam Train (Omar Benson Miller), integrantes da Divisão Buffalo Soldier. Durante uma batalha, o grupo se perde do batalhão e, no caminho, encontra o garoto Angelo Torancelli, interpretado pelo estreante Matteo Sciabordi.

Após uma série de coincidências, os militares passam a acreditar que o garoto é capaz de fazer milagres, surgindo daí uma bonita relação de amizade. Ao resgatar o garoto, o soldado Train diz para os colegas que nunca tinha tocado em um branco antes. O menino, que também nunca havia visto um negro, o batiza de Gigante de Chocolate.

Milagre em Sta. Anna é quase um épico: tem 160 minutos e foi orçado em US$ 45 milhões, contando com belas fotografias, cenas dramáticas e trilha sonora especialmente escrita para emocionar a plateia, tanto aquela que gosta de filmes de guerra quando a que aprecia um dramalhão.

Em entrevista distribuída à imprensa pelos produtores do filme, o diretor Spike Lee revela que encontrar o ator para interpretar Angelo não foi fácil. “O personagem crucial do longa é o do garoto. Escolhemos o ator entre 5 mil candidatos”, diz o diretor, destacando que, em filmes do neorrealismo italiano, os papéis infantis sempre foram fundamentais, como em Ladrões de Bicicleta, Roma e Miracolo a Milano.

O termo Buffalo Soldiers já tinha sido usado nos Estados Unidos antes da Segunda Guerra, para batizar os soldados da 9ª e da 10ª Cavalaria que lutaram na Guerra do México. Eles receberam esse nome por causa da cor da pele e do cabelo, semelhante aos dos búfalos.

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