22/10/2017

Os meus irmãos

Meus irmãos sempre foram meus melhores amigos. Suspeito que a primeira coisa que aprendi a falar foi um balbucio do tipo “neném”, em referência a eles, Marcelo e Rafael. Os dois são gêmeos e a diferença de idade entre nós é de apenas um ano e meio. Sim, pode sentir pena dos meus pais. Éramos, tipo, trigêmeos. Era comum as pessoas confundirem os dois, já que até o DNA deles é o mesmo, mas eu sempre soube quem era quem. Já o sangue, nós três compartilhamos o mesmo tipo: AB+.

Além do sangue, como irmãos, compartilhamos também a mesma infância. Ou seja, no futuro, quando eles tiveram as famílias deles e eu a minha, teremos histórias diferentes para contar. Mas não importa o que aconteça, teremos sempre as mesmas (boas) lembranças daquela época. E isso é algo muito especial.

Quanta fofuraOutra coisa especial que também vamos guardar como lembrança aconteceu no último final de semana, quando nós três, com nossas namoradas, passamos o réveillon juntos na casa do Rafael, em Penedo, além do meu tio, tia e primo que também foram para lá. Esta foi a primeira vez que nós organizamos por nossa conta uma festa familiar conjunta, que espero repetir outras vezes. Mas isso é assunto para outro texto.

O fato é, por causa deles eu nunca me senti sozinho e sempre tive com quem brincar. É claro que nem sempre as coisas ocorriam de maneira harmoniosa. É por isso que eu também aprendi a dividir – mesmo que na marra. Ou seja, eu nunca tive um quarto só meu, um armário só meu, uma televisão só minha, um videogame só meu ou um computador só meu. Tudo era compartilhado. Até os brinquedos, as roupas, as meias e as cuecas (sério!).

Por conta disso, desenvolvemos nossos códigos de convivência. Uma coisa mais ou menos parecida com a que os presos têm nas cadeias. No quarto, dormíamos em uma beliche e a cama de cima sempre foi a mais legal de dormir. O que fizemos? Sorteamos para saber quem iria dormir lá (eu ganhei). O Rafael perdeu e passou o resto da vida dormindo no gavetão (um colchão que ficava escondido embaixo da cama do Marcelo).

Aprendi, ou melhor, desenvolvi táticas para conseguir dormir nas piores situações possíveis: com a luz acessa, com a televisão ligada, com o aparelho de som ligado, com os dois conversando entre eles. Privacidade era um luxo que a gente não podia contar.

Dividíamos também o tempo de uso do computador e da internet: 30 minutos para cada. Naquela época, era mais barato acessar a internet depois da meia-noite, quanto contava apenas um pulso telefônico (se você tem mais de 30 anos sabe do que eu estou falando). Portanto sorteávamos quem iria usar o computador primeiro. Quem ficasse por último quase sempre não aguentava esperar e dormia. O problema era quando o tempo acabava. Se ultrapassasse um minuto do combinado, o outro desligava sem dó o computador gerando aquela briga.

Compartilhamos também os animais de estimação. Tivemos um poodle que se chamava Dino e uma gata que se chamava Lina, além de uma tartaruga e um aquário. Tudo dentro de um apartamento de dois quartos e, no máximo, uns 80 m². E olha que meu pai não gostava de animais dentro de casa.

Festinha de aniversárioEu consegui por pouco tempo exercer meu poder de irmão mais velho. Lembro de uma ocasião em que ganhamos quatro balas. Na partilha, os dois ficaram cada um com uma e eu fiquei com duas. Meu avô ficou intrigado e perguntou porque. Eu disse que era o mais velho e tinha direito. Funcionou por algum tempo até os dois perceberem que juntos eles tinham mais força do que eu sozinho.

Três filhos significava também despesa em triplo. Por isso, não me lembro de ter completado nenhum álbum de figurinhas. Tá certo que eu poderia trocar figurinhas com os meus irmãos, mas meu pai comprava sempre 9 pacotinhos por semana, o que significava apenas 3 para cada um. Impossível completar um álbum assim.

Minha mãe também se desdobrou para nos ocupar enquanto não estávamos na escola. Juntos fizemos natação, inglês, handebol, futebol, judô e até ginástica olímpica. Só não fiz teatro e balé, que eles fizeram. Embora eu tenha escrito um livro sobre o tema.

Brigávamos por tudo, mas as piores ocorriam pelo lugar dentro do carro. Neste caso não tinha sorteio. Ganhava quem entrasse primeiro e ninguém queria viajar no lugar do meio. Sempre dava briga. Sempre. Quando finalmente decidíamos os lugares de cada um no carro, a briga era para saber o que iríamos ouvir no rádio. E lá ia o meu pai fazer o famigerado sorteio. Em uma ocasião o Rafael ganhou e nos obrigou a ouvir durante duas longuíssimas horas um disco inteiro do Sandy & Junior.

Além das boas recordações que guardamos na memória, nós também temos fotos, vídeos, áudios e até sites na internet que fizemos juntos. Meu pai, muito esperto, nos deu uma câmera filmadora, uma fotográfica, um gravador de voz e um computador. Registramos sem a interferência de nenhum adulto quase todas as nossas brincadeiras. Depois de filmado e gravado, meu pai não deixava a gente apagar nada e guardou tudo. Brincamos de jornalistas, de radialistas, construíamos cidades imaginárias e tudo ficou gravado. E não foi só em VHS ou em porta-retratos, mas em nossas memórias.

Momentos para recordar

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