22/01/2018

Os passos de John Lennon em Nova York

No início de novembro tirei uma semana de folga lá do jornal e viajei para Nova York. Como já estava por lá e faltava apenas algumas semanas para completar 30 anos da morte de John Lennon, resolvi apurar como estava a cidade que abrigou o beatle durante nove anos. O resultado dessa curiosidade é a matéria abaixo, que acabou sendo publicada no dia 5 de dezembro no caderno de Variedades do Jornal da Tarde. Ah! O sujeito com uma jaqueta preta e gorro na cabeça sou eu posando de turista. Todas as fotos da matéria foram feitas por mim, exceto (obviamente) onde John Lennon aparece. Essas fotografias foram feitas por Allan Tannenbaum e gentilmente cedidas para essa reportagem.

Por: Felipe Branco Cruz, de Nova York

Há mais de 100 anos, a guarita de segurança, de cor dourada e em art-déco, está no mesmo lugar: ao lado do portão que dá acesso ao edifício Dakota, no número 1, da Rua 72 oeste, em frente ao Central Park, numa área nobre de Nova York. Exatamente ao lado dessa guarita, John Lennon foi assassinado em 8 de dezembro de 1980, quando chegava ao prédio. Ele morava aqui. Até hoje, Yoko Ono, a viúva do Beatle, mora no apartamento de 34 cômodos em que o casal vivia, no último andar. Desde a morte de Lennon, há 30 anos, o lugar é ponto de peregrinação de fãs, que tiram fotos em frente ao portão.

Num ponto do Central Park, bem em frente ao Dakota, a pedido de Yoko Ono, foi construído, em 1985, um jardim batizado de Strawberry Fields, onde um mosaico com a palavra “Imagine” – um dos muito clássicos de Lennon – é uma espécie de memorial ao cantor. Ali, ônibus de turismo param a todo instante, com pessoas que tiram fotos junto ao mosaico, sempre adornado com flores.

Nova York, onde ele morava desde 1971, está repleta de referências a John Lennon. E de pessoas que têm vivas na memória lembranças do cantor que virou símbolo da luta pela paz. O fato é que, até hoje, Nova York respira Beatles. E Lennon. Ironicamente, ele costumava dizer que escolhera a maior cidade dos Estados Unidos para viver porque ali se sentia seguro, podia sair pela porta da frente de sua casa para jantar, sem ser perseguido. Acabou sendo morto em frente ao prédio em que morava.

Erguido em 1884, o edifício Dakota é apenas um dos pontos de Nova York que atrai a atenção de fãs e curiosos sobre John Lennon. Quando foi assassinado por Mark David Chapman, às 22h50 de 8 de dezembro de 1980, com quatro tiros, o cantor estava acompanhado de sua mulher. Os funcionários do Dakota não gostam de falar sobre o episódio. “A senhora Yoko Ono não está em casa. E mesmo que estivesse eu não iria incomodá-la. Não podemos falar mais nada, por medidas de segurança. Se quiser falar com ela, mande uma mensagem pelo Twitter”, disse o segurança, de dentro da guarita dourada.

Por si só, o Dakota já é uma atração turística em Nova York. O folclore local diz que o prédio é mal assombrado. E não é por menos. Afinal, o edifícil já serviu de locação para o assustador filme “O Bebê de Rosemary”, dirigido por Roman Polanski. Dentre seus ilustre moradores, viveu ali nada menos que Boris Karloff, que no cinema deu vida ao assustador “Frankenstein”.

No memorial do Central Park, o clima é outro. Ali, permanentemente há músicos tocando canções dos Beatles, como o grupo cover The Meetles, que também se apresenta diariamente nas estações de metrô. Mas o personagem mais icônico do local é o nova-iorquino Airton Ferreira dos Santos Júnior. Aos 46 anos, esse filho de brasileiros tem jeitão hippie e há 17 anos vai todos os dias ao Central Park, especialmente para enfeitar o mosaico com flores. “Sempre arrumo de um jeito diferente”, diz ele. Para a tarefa quase religiosa, ele usa, por dia, seis dúzias de flores. “Mas não gasto nada. Todas as flores são doadas por floriculturas da cidade”, conta. “John nos ensinou que a paz é possível. Faço isso pela paz”.

Algumas fotos feitas por Allan Tannenbaum em 1980, semanas antes de John Lennon morrer.
As imagens foram usadas no clipe da música “(Just Like) Starting Over”


Um cara simples e divertido

Outro homem cuja vida está fortemente ligada a John Lennon é o fotógrafo Allan Tannenbaum, 65. Ele ficou famoso por fazer fotos históricas de Lennon e Yoko, que adoravam passear no Central Park. Tannenbaum é autor de fotos célebres do Beatle, incluindo algumas dessa reportagem e as fotos do making of do clipe “(Just Like) Starting Over” (veja o clipe abaixo), durante o qual Lennon e Yoko ficam completamente nus. O fotógrafo não chegou a se tornar amigo do cantor. Mas tinha uma boa relação com ele e o conhecia como uma pessoa comum, não apenas como o ídolo mundial. “John fazia piadas o tempo inteiro. Era um cara muito divertido”, conta Tannenbaum. “Dez dias antes de ele ser assassinado, eu fiz fotos de John na casa dele”, lembra. Casado com uma brasileira, ele já teve fotos publicadas na capa de algumas das maiores revistas do mundo, como Time, Newsweek, Rolling Stone e a extinta revista brasileira Manchete. “John e Yoko formavam um casam muito próximo. Ele a chamava de mãe. E, realmente, John não era importunado em Nova York. De todas as vezes que estive com ele pelas ruas da cidade, só duas pessoas pediram autógrafo. Nunca imaginei que ele iria morrer daquele jeito”.

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Quando foi morto, John Lennon tinha 40 anos. E estava se cuidando. Havia largado as drogas e o álcool. O escocês Matthews Mahir, 71 anos, dono do bar McSorley’s Old Ale House – o mais antigo de Nova York –, comprova. O lugar, fundado em 1854, era o bar preferido de Lennon e de outras celebridades mundiais, como Elvis Presley, Muhammad Ali e o ex-presidente John Kennedy. Todos fregueses de Mahir. “John se sentava numa mesa no canto e sempre usava um chapéu que lhe escondia as orelhas”, conta Matthews. “Ele não bebia cerveja e adorava o nosso cheese burguer”. O cantor gostava de pedir um refrigerante e, após comer o sanduíche, ficava uma ou duas horas apenas sentado, olhando o movimento. “Era um cara simples e divertido. Na primeira vez que ele veio ao bar, eu não o reconheci. Daí, ele disse: ‘Você sabe quem eu sou?’. Depois, deu um sorriso e me abraçou”, lembra. Matthews Mahir também fazia o papel de segurança e não deixava nenhum fã incomodar seu cliente. “Poucas pessoas o reconheciam ou tinham coragem de falar com ele”.

Há 2 meses, o mundo celebrou os 70 anos de nascimento de John Lennon. Agora, haverá eventos para marcar os 30 anos da sua morte. As duas datas são responsáveis diariamente por matérias nas televisões americanas sobre Lennon e também por aquecer o mercado editorial com novos livros. O cinegrafista Adam Shanker, 49 anos, é personagem de um desses livros: “8 de Dezembro de 1980. O Dia em que John Lennon Morreu”, ainda não lançado no Brasil. A obra, escrita por Keith Elliot Greenberg, acompanha a trajetória de diversos nova-iorquinos no dia em que o Beatle foi assassinado. Na época, Shanker tinha apenas 19 anos e era barman. “Foi um grande choque”, diz ele, que guarda todos os jornais da época. “Comprei todos os exemplares que achei. Sou muito fã de John Lennon. No dia seguinte à sua morte, eu era uma das mais de 100 mil pessoas que foram homenageá-lo num show no Central Park”.

Clique aqui para ver uma entrevista com Keith Elliot Greenberg feita pela BBC

A presença de Lennon também pode ser sentida em outros lugares de Nova York, como no bar Hard Rock Café, na Times Square, que possui um museu com os ternos usados pelos Beatles no início da carreira, além de instrumentos e capas de discos autografadas. No bar, há, inclusive, um memorial para Lennon. Mas se você quiser se sentir próximo dos Beatles, o ideal é visitar o Museu de Cera Madame Tussaud (veja a foto acima), também na Times Square, onde é possível ver em tamanho real estátuas de cera dos Beatles bem no início da carreira durante a Beatlemania.

Outro ponto bacana de se visitar também é a ONU – Organização das Nações Unidas. Lá está em exposição a obra de arte “Arma em Nó”, criada em 1980 em memória de John Lennon. Seu criador, o artista Carl F. Reuterswärd, doou esta escultura à Yoko Ono, que por sua vez à doou para as Nações Unidas, onde está em permanente exposição. Essas são apenas algumas das homenagens ao homem imortalizado por sua vida e obra, fundador da mais importante banda de todos os tempos e até hoje lembrado pela canção “Imagine”. E que perdeu a vida justamente quando despontava como um dos maiores lutadores pela paz mundial.

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Assista ao clipe de (Just Like) Starting Over

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