20/08/2017

Pegadinhas feitas por internautas brasileiros viralizam em todo o mundo

Por Felipe Branco Cruz
Publicado originalmente no UOL em 30/06/2015

Na semana passada, uma pegadinha brasileira viralizou em todo o mundo após o grupo de humor “Boom”, de Maringá (PR), cobrir totalmente com post-it azul um carro estacionado em uma vaga reservada para deficientes físicos. O vídeo, que mostra a reação irada do motorista, além de conscientizar para uma boa causa, também demonstrou que há muita gente na internet produzindo pegadinhas tão bem boladas como as mostradas no “Programa Silvio Santos”, no SBT. Em quatro dias, o vídeo do canal de humor foi visto mais de 4 milhões de vezes (assista aqui).

Além do Boom, destacam-se no YouTube os canais de David Mafra, de Belém (PA), de Gabriel Nuts, de Londrina (PR), “Os Primitivos”, do Rio de Janeiro, e “Não É Sério”, “Abud TV” e “John Leitão”, todos de São Paulo. Na internet, esses tipos de vídeo são chamados pelo nome em inglês: “prank” (trote). As ideias para as brincadeiras e a cara de pau dos humoristas poderiam facilmente ser usadas em programas de humor como o “CQC”, o “Pânico” ou mesmo o do apresentador Silvio Santos.

Mas, segundo os idealizadores dos canais, a internet tem se mostrado um terreno fértil e muitas vezes rentável, já que a maioria deles tem como principal fonte de renda o dinheiro pago pelas visualizações no YouTube.

Idealizador do “Boom”, o publicitário Tiago Fonseca, 23 anos, disse ao UOL que a equipe do canal é formada por dez pessoas e que começou a fazer pegadinhas em 2013. As brincadeiras mais famosas do grupo envolvem pegadinhas assustadoras, como a que simula um tiroteio, a que imita morte de uma pessoa por ebola ou até uma diarreia em um banheiro público. O canal tem 2,3 milhões de inscritos, e os vídeos já foram vistos quase 300 milhões de vezes.

“A nossa intenção com a pegadinha da vaga para deficientes não foi gerar dano ao carro do motorista e, sim, conscientizar”, disse Tiago. “Ele foi constrangido mundialmente e ainda ganhou uma multa de R$ 54”, ironizou. Com o sucesso do grupo, a maioria das pegadinhas feitas em Maringá já não funciona mais, pois o público sabe que pode estar sendo vítima da trupe. No caso do carro, no entanto, era impossível para quem passava por ali não notar a brincadeira. “Ficamos esperando alguém estacionar, e assim que o motorista saiu, uma pessoa da equipe o acompanhou e nos avisou que ele demoraria mais de uma hora.”

DAVID MAFRA

Outros territórios
O publicitário David Mafra, 30 anos, também ficou tão famoso em sua cidade, Belém, que tem que viajar para outros lugares para fazer suas novas pegadinhas. A mais recente delas foi feita em Miami, nos EUA.

Seu canal homônimo é um sucesso e conta com mais de 300 mil inscritos. Em uma das pegadinhas que ele pregou nos americanos, Mafra corria na direção da pessoa e gritava em inglês: “É melhor correr, cara!”. Imediatamente, a pessoa corria na direção contrária, sem saber do que se tratava.

Mas, entre as pegadinhas do canal, uma das que mais viralizou foi a da Nutella, na qual Mafra entra em um banheiro público e pede para a pessoa da cabine ao lado passar o papel higiênico pelo vão sob a divisória. Quando ele pega o papel, propositalmente suja a mão da pessoa com Nutella. A vítima, como é de se esperar, pensa que se trata de outra substância de cor semelhante.

“Atualmente, fazer as pegadinhas se tornou a minha principal fonte de renda. E o dinheiro não vem só do YouTube, eu também produzo vídeos publicitários para pessoas do Brasil inteiro que me conheceram pela internet”, disse Mafra.

Nem todo o mundo entende as pegadinhas. Um guarda municipal, por exemplo, processou Mafra porque ele tinha se fantasiado de Kiko, do Chaves, e jogado uma bola em sua cabeça. “Depois, eu gritava: ‘Gentalha! Gentalha!'”, contou. “Ele não gostou, e a Justiça mandou eu pagar uma indenização. Mas o vídeo continuou no ar”, revelou. Mafra também teve que vencer a timidez. “No início, eu morria de vergonha. Hoje, se pedirem para eu ficar pelado em cima de uma estátua dançando ‘Vai Lacraia’, eu faço.”

Durante as manifestações em 2013, Mafra viajou até São Paulo e participou dos atos fantasiado de Homem-Aranha. “Saiu em todos os jornais do Brasil. Eu estava lá nas manifestações, correndo na direção dos policiais”, lembrou.

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Ivo Holanda como inspiração
Londrina, no Paraná, é o cenário para as pegadinhas de Gabriel Henrique Sapateiro, 31 anos. Ele é dono do canal Gabriel Nuts. Na cidade, ele também faz shows de stand-up comedy. “Minha inspiração é o Ivo Holanda [ator que antigamente fazia as pegadinhas do Silvio Santos]. Eu cresci assistindo às pegadinhas dele”, contou. “Ainda não tive o prazer de apanhar durante as brincadeiras, como o Ivo Holanda, mas já recebi muita ameaça.”

Gabriel, no entanto, diz que a maioria das pessoas aceita bem a brincadeira. “Antes de fazer a pegadinha, eu já imagino que tipo de reações as pessoas vão ter. A maioria acaba aceitando bem”, disse. Em uma delas, por exemplo, Gabriel simula estar vendendo a alma da pessoa para o Demônio. Em outra, ele tenta vender um pênis de borracha no meio da rua.

Wesley da Silva Amorim, de 22 anos, do canal “Não É Sério”, contou que atualmente vive apenas da renda do canal. “Posso dizer que eu sou um produtor de conteúdo para internet”, disse. Suas pegadinhas simples mexem com as pessoas. Em uma delas, por exemplo, ele coloca um alto-falante na rua e começa a pregar a favor do ateísmo. “As pessoas começaram a se incomodar ao ouvir que Deus não existe”, disse. No mesmo vídeo, no entanto, ele muda o discurso e prega como um evangélico. Aí, ninguém o incomodou.

O canal “Não É Sério” tem quase 300 mil inscritos, e seu vídeo mais polêmico é um em que Wesley sobe no altar de uma igreja evangélica e simula estar possuído pelo demônio. Na ocasião, os pastores tentaram exorcizá-lo, até perceberem que se tratava de uma brincadeira. “Eles entenderam a brincadeira, mas não autorizaram a publicação do vídeo. Eu publiquei mesmo assim, mas borrando o rosto deles. Agora eles estão me processando”, revelou. “Meu objetivo, no futuro, é trabalhar como ator.”

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