20/08/2017

Romário: Como o samba, funk incomoda porque é música de preto e da favela

Por Felipe Branco Cruz
Publicado originalmente no UOL em 12/07/2017

Para o senador Romário, o funk carioca dá visibilidade a uma realidade brasileira que todos preferem fingir que não existe. E, segundo ele, o preconceito contra o funk tem a mesma raiz do preconceito que o samba já sofreu. A opinião do ex-jogador de futebol sobre o funk é relevante: ele foi escolhido para ser o relator de uma ideia legislativa que pretende criminalizar o gênero musical.

Em entrevista por e-mail ao UOL, Romário lembrou que o artigo 5º da Constituição Federal garante o direito de livre manifestação de pensamento. “Não há como defender isso [sobre criminalizar o funk]”, disse.

No texto descritivo da ideia, seu autor, o empresário paulista Marcelo Alonso, escreve: “São somente [o funk] um recrutamento organizado nas redes sociais por e para atender criminosos, estupradores e pedófilos a prática de crime contra a criança e o adolescente, venda e consumo de álcool e drogas, agenciamento, orgia, exploração sexual, estupro e sexo grupal” (sic).

Qualquer pessoa pode sugerir uma ideia de lei no site do Senado, e, caso ela consiga reunir mais de 20 mil assinaturas em até quatro meses, um senador é designado para relatá-la. Se a proposta for considerada constituicional, ela pode virar lei.

Mesmo contra a proposta, Romário quer promover um debate sobre liberdade de expressão no Senado. “Temos a oportunidade de falar sobre cultura, educação, democracia e preconceito. Não acho que seja viável se proibir qualquer estilo musical, especialmente o funk, que é na verdade um movimento das favelas, da periferia.”

Para isso, ele pretende convocar para falar no Senado artistas como Anitta, MC Marcinho, Cidinho e Doca, MC Koringa, MC Bob Rum, Valesca Popozuda, Bochecha e Tati Quebra Barraco.

Veja os principais trechos da entrevista com Romário

UOL – A ideia legislativa para criminalizar é inconstitucional?
Romário – O art. 5º da Constituição Federal garante o direito de livre manifestação do pensamento. Não há como defender isso.

Qual é a importância de debater uma ideia como esta no Senado, com a presença de artistas famosos, como Anitta?
Acho que esse debate é bastante válido, porque temos a oportunidade de falar sobre cultura, educação, democracia e preconceito. Não acho que seja viável se proibir qualquer estilo musical, especialmente o funk, que é na verdade um movimento das favelas, da periferia.

Na sua opinião, qual é a importância do funk para a cultura brasileira?
A música nos une enquanto comunidade, nos faz ter a sensação de pertencer a um grupo e dá voz aos seus anseios, problemas, realidade, sexualidade.

Por que o funk ainda é tão discriminado no Brasil a ponto de alguém querer proibi-lo?
O funk dá visibilidade a uma realidade que todos preferem fingir que não existe, que é a realidade da criminalidade e violência das favelas.

Você gosta de ouvir funk?
Meu ritmo predileto é o hip-hop. Ouço desde que morava na Holanda. Depois veio o crescimento do rap e do funk no Brasil e logo aderi também. É um ritmo dançante, uma batida inigualável.

A proposta de criminalizar o funk é preconceito?
Não há dúvidas sobre isso. O movimento de preconceito contra o funk tem a mesma raiz do preconceito que o samba já sofreu, ambos são música de preto, nasceu nas favelas e ganhou o mundo. Isso incomoda.

Ao criminalizar o funk, muitas pessoas irão perder o emprego?
Criminalizar o funk é criminalizar a indústria da cultura, a indústria criativa. Com certeza geraria desemprego e jogaria muitas pessoas na marginalidade.

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