11/12/2017

Sem animais nem palhaços-anões: Como sobrevive o circo mais antigo do país

Por Felipe Branco Cruz
Publicado originalmente no UOL em 21/01/2017

Faltava menos de 2 horas para o início de mais um espetáculo do circo Stankowich quando uma ONG de proteção aos animais surgiu, pela terceira vez naquela semana, com cartazes e alto falantes gritando: “Circo legal não tem animal”. Protestos como esses se tornaram frequentes na década de 2000, até que todos os animais da companhia foram confiscados por autoridades e entregues a zoológicos.

Em 2006, no auge das manifestações contra os bichos no circo, a dançarina Arielle Stankovich, que na época tinha apenas 14 anos, não entendia por que queriam levar embora os animais. “Tínhamos tigres, chimpanzés, elefantes e ursos. Eles eram nossa família”.

Arielle, hoje com 25 anos, faz parte da 6ª geração da Stankowich, uma das famílias circenses mais tradicionais do Brasil e dona do circo mais antigo em atividade no país, com 161 anos. Desde 1856, os bichos sempre foram parte da identidade desses artistas, quando o romeno Pedro Stankowich imigrou para o Brasil trazendo em um navio, vindo da Europa, alguns animais amestrados.

O circo até hoje é comandado pelos Stankowich. Os irmãos Marlon e Márcio, tataranetos de Pedro, mantêm duas unidades atualmente estacionadas em São Paulo e em Santos. “Ele [Pedro] se apresentava nas praças, no esquema saltimbanco, só com seus animais”, lembra Marlon. “Os bichos eram tão importantes no passado que, quando o circo mudava de uma cidade para a outra, eram feitos cortejos com eles desfilando soltos pelas ruas”.

Pelas contas da família, os Stankowich podem se considerar ainda mais antigos do que o circo Ringling, que na semana passada foi notícia ao anunciar que vai fechar as portas em maio, após 146 anos em funcionamento. Autodenominado “o circo mais antigo do mundo”, o Ringling vinha sofrendo pressão de ONGs por também usar animais, inclusive o elefante Jumbo, que era tão grande que seu nome foi usado para batizar aviões. “A proibição de usar animais no Ringling foi um dos motivos do seu fim”, acredita Marlon.

Marlon lembra que no começo do circo, ainda no século 19, um dos elefantes de seu tataravô servia também como proteção no caminho de uma cidade para outra durante as turnês. “Um funcionário ia no lombo do elefante com uma espingarda protegendo o circo de animais selvagens que surgiam nas precárias estradas do interior”.

A perda dos bichos também mexeu no bolso da trupe. “Um elefante custa R$ 150 mil. Todos os nossos animais foram confiscados e entregue a zoológicos, a maioria particulares, que lucraram com isso”, diz. Entre eles estava a chimpanzé Nina, que ficou 35 anos com a família e foi levada em 2011 para o zoológico de Pomerode, em Santa Catarina, onde morreu afogada após uma enchente. “Foi um baque saber da morte dela”, lembra. “Gastávamos R$ 4 mil mensais com tratamento dos animais, além de uma equipe de dez pessoas dedicadas só para isso”.

Com a idade avançada do pai Antônio, Marlon divide a administração com o irmão e já está treinando os filhos, Marlon Junior, 11, e Natália, 17, no picadeiro. “Meu pai ainda segue várias simpatias, como nunca ficar de costas para o picadeiro e sempre entrar com o pé direito”.

Os filhos também seguem os passos da família. Marlon Júnior é o palhaço Marlonzinho e Natália é dançarina, malabarista e estrela da atração Força Capilar, em que ela faz acrobacias suspensa por uma corda presa em seus cabelos. “Aprendi a Força Capilar com uma trapezista antiga. Ela trabalhava aqui e me ensinou”, conta Natália. A mãe, Carla, também participa das atrações como dançarina e mágica.

Mudanças no circo

Em quase 200 anos de atividade, o circo teve que se adaptar muitas vezes ao longo dos anos. A lona, que no início do século 20 era de lã e pegava fogo fácil, foi substituída por um material antifogo. As arquibancadas, que eram de madeira, agora são parecidas com as de estádios de futebol. E o som e a iluminação são muito mais modernos do que já foram no passado.

Algumas atrações também não existem mais no Stankowich. São os casos do Homem-Bala e de acrobacias de pessoas suspensas pelos dentes, cujas funções sempre foram consideradas muito perigosas. “Não achamos mais profissionais dispostos a correr esses riscos”, afirma Marlon.

Os palhaços-anões também são difíceis de encontrar. “Acho que todos foram contratados pelo ‘Pânico'”, brinca ele sobre o programa da Band. Em compensação, o Globo da Morte continua firme. No Stankowich, a atração comporta seis motos e tem apenas 4,25 metros de diâmetro, o menor do mundo.

Família circense

Com 120 funcionários e 30 artistas, o Stankowich abriga também outras famílias além dos proprietários. Uma delas é a de Athos Silva Miranda, 74, que interpreta o palhaço Chumbrega. “Nasci em Birigui, mas só porque o circo onde minha mãe trabalhava passou pela cidade. Minha família trabalha no circo e sou palhaço desde os anos 1960”, diz Athos, que tem seis filhos e sete netos. No Stankowich, ele vive com o filho Marlon Miranda, 24, e o neto de 4 anos. Os demais filhos estão em outros circos.

Com as economias, Athos conseguiu comprar um trailer próprio, equipado com fogão, geladeira e micro-ondas. É ele também quem dirige o veículo, quando a trupe está de mudança. Antes dos espetáculos, o palhaço conta com a ajuda do filho no camarim para fazer a maquiagem e colocar a peruca. “Nem precisamos ensaiar mais porque já sabemos o que o outro vai fazer”.

Chumbrega lamenta que o interesse do público pelo circo tenha diminuído com os anos. “Além da falta dos animais, o circo também sofre com a concorrência. Antes, o circo era a grande atração da cidade. Agora tem cinema, shopping, TV, computador e internet”.

“Loki de Praça”

Os artistas de circo podem ser divididos em duas categorias: os “Tradicionais”, que nasceram e cresceram dentro do picadeiro; e os da “Cidade” ou “Loki de Praça”, que são aqueles que decidiram seguir com o circo quando passou pela sua cidade.

Taise Bertola, 25, é uma Loki de Praça. Nascida em Sorocaba, ela decidiu há quatro anos deixar a família para trás e seguir o circo. “Ninguém da minha família nunca trabalhou no circo. Abandonei meu emprego em um estúdio fotográfico e a faculdade de logística e vim trabalhar aqui”, conta a dançarina. “Eu passava sabonete no olho e dizia no meu trabalho que estava com conjuntivite só para ir ao circo”. No Stankowich, ela começou a namorar há um ano um dos globistas (motoqueiro do globo da morte) e está grávida dele. “Estou começando uma nova família no circo”.

Vanessa Vaz, 30, é outra Loki de Praça. Nascida em Itapeva, no interior de São Paulo, viu há dez anos o circo passar em sua cidade. Eles estavam precisando de uma dançarina e decidiu se candidatar. Solteira, tem uma filha de 7 anos que vive com ela no circo.

Da vida comum na cidade, as duas dançarinas estranharam o horário de trabalho do circo. “Sempre trabalhamos nos finais de semana e vamos dormir muito tarde, por causa das apresentações”, conta Vanessa. Outra diferença é o pagamento do salário, feito semanalmente. Os valores variam de acordo com a função de cada pessoa –geralmente, os artistas trabalham em mais de uma atração, como malabarismo ou acrobacias. O salário de uma mesma pessoa pode variar entre R$ 250 a R$ 1.200 por semana, dependendo de sua função naqueles dias.

O futuro no circo não é um problema para quem já está lá. “Quando era jovem, eu não pensava muito no meu futuro”, conta Vanessa, “mas agora estou começando a pensar em quando eu ficar velha e não conseguir mais dançar. Mas, no circo sempre tem alguma coisa para a gente fazer”.

Serviço:

Unidade Pink
Endereço: Av. Alcântara Machado, altura do 4600. Radial Leste (próximo ao metrô Tatuapé)
Telefone: (11) 94924-6455
Horários: De terça a sexta, às 20h30
Sábado, domingo e feriados: às 16h, 18h15 e 20h30

Unidade Vermelha
Endereço: Avenida Almirante Saldanha da Gama, ao lado do clube Vasco da Gama
Telefone: (12) 99777-9407
Horários: Segunda, terça e quarta-feira às 21h
Quinta, sexta, sábado, domingo e feriados às 19h e às 21h

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