14/12/2017

Tudo ao mesmo tempo agora

Por Felipe Branco Cruz

O que é o tempo exponencial? A cultura popular está aí para nos ajudar a responder. Por exemplo, na música “Cariocas”, de Adriana Calcanhotto, a artista canta que “Cariocas não gostam de sinal fechado”. De fato, há uma anedota no Rio que quantifica quanto tempo demora para passar um segundo. E a resposta é a síntese do trânsito na cidade (e porque não do tempo exponencial?):

“É o tempo do sinal vermelho ficar verde e alguém buzinar na sua traseira”

 

 

Em “Alice no País das Maravilhas”, Lewis Caroll também brinca com o tempo. Em um diálogo com o Coelho, a garotinha pergunta quanto tempo dura o eterno e o animal responde:

“As vezes apenas um segundo”.

 

O Coelho fazendo “coelhices”
O Coelho fazendo “coelhices”

No mundo altamente tecnológico de hoje em dia, o “tempo exponencial” é o termo usado para explicar a instantaneidade das coisas, onde tudo muda o tempo inteiro. Os amores, os relacionamentos, o comércio, a cultura, a comida etc.

Já a temida função exponencial (aquela que aprendemos lá no colégio) é uma equação matemática que demonstra por A + B coisas que crescem ou decrescem rapidamente.

Em bom português:

“explica a urgência (mesmo que não seja) da vida moderna”.

 

Exemplo na matemática de função exponencial “ajudando o povo de humanas a fazer miçanga”
Exemplo na matemática de função exponencial “ajudando o povo de humanas a fazer miçanga”

No jornalismo, o tempo exponencial com a mesma velocidade que lhe oferece a urgência da notícia também a descarta ao limbo. No ambiente virtual, são poucos os veículos de comunicação que ignoram exponencialidade do tempo. Não há mais o conceito pré-socrático de“physis”, que prega o saber em sua mais ampla e profunda totalidade.

O que temos hoje é o “tudo ao mesmo tempo agora” (olha aí a cultura popular para nos ajudar mais uma vez). Como já cantava a banda paulistana Titãs ou escrevia a autora infanto junvenil Ana Maria Machado.

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TUDO AO MESMO TEMPO AGORA!

 

E pensar que tudo começou com as drosófilas…
E pensar que tudo começou com as drosófilas…

Como sobreviver: 
Para sobreviver, o jornalismo deverá atuar no setor das ideias e da inovação. Temos que nos adaptar tal qual a teoria da evolução. É o chamado“Dawinismo Digital”. Não vão sobreviver os veículos de comunicação que não se adaptarem a evolução da comunicação. Fica o alerta: não há tempo para maturação.

Estudos apontam, porém, que a próxima tendência será a conexão natural, na contramão da ultraconectividade virtual. A palavra de ordem será:“experimente a desconexão”. Pesquisas indicam que as pessoas não desejam mais “coisas” e sim “experiências”. Os nativos digitais já entenderam a função da conexão e agora querem experimentar a vida real.

Nunca é exagero citar o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, um dos poucos pesquisadores ainda vivos que, do alto de seus 90 anos, com rara lucidez, mantém-se a frente de seu tempo. Na obra “Amor Líquido”, por exemplo, ele alerta para o mundo atual propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível. Bauman destaca que o envolvimento sem nenhum contato além do virtual nos impede de manter laços a longo prazo.

Vivemos, de fato, o “tudo ao mesmo tempo agora”.

“Os relacionamentos escorrem das nossas mãos por entre os dedos feito água”
“Os relacionamentos escorrem das nossas mãos por entre os dedos feito água”

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