21/11/2018

Um mapa das assimetrias que são socialmente aceitáveis nos Estados Unidos

DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES – O Estado de S.Paulo

Turistas estrangeiros têm me questionado nas ruas. “David, diante de tantas desigualdade nos EUA, quais são as socialmente aceitáveis?” É uma ótima pergunta. Apresento aqui um mapa da desigualdade americana para evitar constrangimentos.

A desigualdade acadêmica é socialmente aceitável. Não há problema quando demonstramos fazer parte do 1% que frequenta as melhores universidades ao usar agasalhos de Princeton, Harvard ou Stanford.

Já a desigualdade de origens ancestrais não é socialmente aceitável. Não se pode andar por aí se gabando de ser de uma família que desembarcou do Mayflower nem dizer que descende de gerações de Throgmorton-Winthrops, que transmitiram um legado de educação elitista e boas maneiras.

A desigualdade de preparo físico é aceitável. Não há problema em vestir uma lycra justa para mostrar ao mundo que a prática de pilates lhe deu coxas de aço. Exibições desse tipo são bem-vindas enquanto prova de sua louvável disciplina e mérito.

A desigualdade de preparo moral é inaceitável. É contra as regras vangloriar-se de superioridade na castidade, na integridade, na honra ou na honestidade. Em vez disso, deve-se respeitar o fato de que somos todos moralmente iguais, por mais que variem nossos comportamentos e gostos éticos.

A desigualdade esportiva é aceitável. É normal usar uma camisa dos Yankees, um agasalho da LSU ou os variados emblemas das equipes esportivas profissionais. O fato de o seu time ter o hábito de arrasar os adversários é representativo da sua força enquanto indivíduo.

A desigualdade entre as crenças é inaceitável. Não seria correto usar uma camiseta católica, batista ou judaica para sugerir que seus correligionários estariam mais próximos de Deus. É errado desmerecer religiões com base na ideia de que o credo dos outros é equivocado.

A desigualdade de renda é aceitável. No caso de um grande craque do beisebol, é socialmente aceitável que os seus serviços sejam vendidos por US$ 25 milhões por ano (afinal, é preciso fazer aquilo que é melhor para a sua família). No caso de um executivo destacado, não é mais considerado de bom tom receber um pacote de compensação de US$ 18 milhões, mas todos aqueles que ainda conseguem algo do tipo aceitam a oferta.

A desigualdade de gastos é menos aceitável. Para aqueles que ganham US$ 1 bilhão, é recomendado ir para o trabalho de calça jeans e camiseta preta. É recomendado morar em Omaha e comer em restaurantes simples.

Para os que ganham US$ 200 mil por ano, é aceitável gastar dinheiro em qualquer cômodo antes usados por empregados, como a cozinha, mas é vulgar gastá-lo com brinquedos adultos que poderiam proporcionar prazeres superficiais, como uma Maserati.

A desigualdade tecnológica é aceitável. Se você é do tipo de pessoa que compreende os últimos lançamentos de hardware e os mais novos avanços do software, que conhece os melhores aplicativos, é aceitável demonstrar com orgulho o seu conhecimento superior e exibir-se diante dos ultrapassados que não entendem nada.

A desigualdade cultural é inaceitável. Aqueles que vão à ópera ou apreciam peças de Ibsen não podem acreditar que são donos de uma sensibilidade mais refinada do que as pessoas que gostam de Lady Gaga, Ke$ha e grafite.

A desigualdade de status é aceitável para os professores universitários. As universidades existem dentro de uma estrutura de status cuidadosamente estratificada e certas universidades, como Brown, contam com uma verdadeira elite discente. Os departamentos universitários são comparados em rankings e concorrem pela superioridade.

A desigualdade de status é inaceitável para os professores do ensino médio. Os professores dessa categoria resistem às comparações em rankings. Seria desprezível que o departamento de uma escola concorresse com os departamentos de outras escolas próximas.

A desigualdade entre as cervejas está em queda.

Antes, havia uma grande diferença de status entre as cervejas menores e a boa e velha Budweiser. No jargão acadêmico, as cervejas tinham um alto coeficiente de Gini. Mas, conforme as microcervejarias se adaptaram ao grande mercado, essas diferenças diminuíram.

A desigualdade entre os cupcakes está em alta. Os fregueses ficam horas na fila de lojas especializadas, por mais que haja outros bons cupcakes à venda na loja da Safeway mais próxima, sem fila nem nada.

A desigualdade em viagens é aceitável. É normal que haja filas específicas de check-in para os passageiros que acumularam bônus em programas de milhagem. A desigualdade no supermercado é inaceitável. Não seria permitido que houvesse uma fila especial para um caixa dedicado aos consumidores obesos que gastam muito em porcarias e guloseimas.

A desigualdade esportiva é inaceitável se o seu filho ou filha for um atleta mediano na equipe juvenil da qual participa.

Mas, se estivermos falando de um astro, os grandiosos feitos dele ou dela serão a justificativa de toda a sua existência.

A desigualdade entre as vocações é aceitável desde que não seja comentada. Os cirurgiões são mais prestigiados do que os motoristas de estacionamento, mas isto não é oficialmente reconhecido.

Por outro lado, a desigualdade étnica – acreditar que um grupo é melhor do que o outro – é inaceitável (esse é um dos maiores feitos da nossa cultura).

Caro visitante, somos um povo democrático e igualitário, que passa a vida tentando desesperadamente superar um ao outro. Desejamos a todos uma estadia agradável.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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