20/08/2017

Uma única cena de ‘Aquarius’ é mais pesada do que íntegra de ’50 Tons’?

Por Felipe Branco Cruz
Publicado originalmente no UOL em 09/02/2017

As cenas quentes e a pegação nos trailers de “Cinquenta Tons Mais Escuros” até podem enganar quem espera um filme só para maiores. Mas a baixa classificação indicativa de 16 anos não foi dada por acaso. “Apesar da temática forte, o filme ainda é mais romântico do que erótico, com personagens e elementos que distanciam a obra do cunho sexual”, explica ao UOL Alessandra Xavier Nunes, diretora-adjunta do Departamento de Classificação Indicativa do Ministério da Justiça.

As regras que determinam a classificação indicativa seguem um manual de critérios técnicos do Ministério da Justiça. É este documento que diz, por exemplo, que um filme deve subir a classificação de 12 para 14 anos quando o conteúdo sexual preenche de 10% a 30% da obra, podendo conter cenas de nudez mas sem nus frontais. Ou seja, mais da metade de “Cinquenta Tons Mais Escuros” não tem sexo explícito.

Alessandra foi a única mulher presente quando o filme foi analisado, em 23 de janeiro, em uma sala de cinema comercial em Brasília. O longa-metragem foi exibido para ela, três analistas e dois estagiários do Ministério. “Achei que teríamos dificuldade em classificá-lo, mas saímos da projeção convictos de que seria 16 anos. Nenhum adolescente vai ver algo que já não tenha tido contato por outros meios”, conta ela, que é mãe de gêmeos de 13 anos.

A equipe que cuida deste departamento no Ministério da Justiça é composta por dez analistas concursados, além de estagiários de nível superior. A análise é feita sempre por uma equipe de, no mínimo, três pessoas. Se não houver consenso, amplia-se o número de funcionários.

Menos erótico do que “Aquarius”

Eventualmente, a equipe de Alessandra se vê envolvida em polêmicas ao subir a classificação dos filmes para 18 anos, o que pode prejudicar o número de espectadores. Foi o que aconteceu no ano passado com o brasileiro “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho, estrelado por Sônia Braga.

Na ocasião, o cineasta contestou a decisão do Ministério, alegando que outros filmes com cenas de sexo e nudez semelhantes, como “Boi Neon” e “Para Minha Amada Morta”, haviam recebido classificações de 16 e 14 anos, respectivamente. No fim, acabou ganhando a briga e “Aquarius” ficou em 16 anos, depois de os produtores recorrerem duas vezes.

“A cena que nos fez classificar ‘Aquarius’ como 18 anos é muito mais pesada do que qualquer cena que há ‘Cinquenta Tons Mais Escuros'”, esclarece Alessandra. “Ainda que exista relações sexuais em ‘Cinquenta Tons’, elas não são nem um pouco explícitas”, diz a funcionária pública de 45 anos, que conhece a obra de E. L. James e, embora não se considere fã, garante que a adaptação do segundo livro é bem menos picante do que o original. “Li todos os livros, de curiosidade, como todo mundo leu”.

O gosto pessoal da funcionária pública a respeito do filme não se mistura com o trabalho, mas ela dá seus pitacos. “Lembro que a crítica em relação ao primeiro filme [“Cinquenta Tons de Cinza”, de 2015] foi ruim porque não havia as cenas quentes do livro. Fui assistir agora com uma expectativa baixa, mas fiquei positivamente surpresa porque ele tem uma pegada diferente, com uma construção mais elaborada e personagens mais complexos, embora continue sem sexo explícito”.

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